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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Como separar a boa arte do artista babaca?

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

16/01/2022 12h35

Eu acho os filmes de Woody Allen brilhantes; o tipo de humor que o cineasta leva às telas é meu tipo de humor predileto. Mas, desde que as acusações sobre assédio e abusos sexuais que envolvem Allen vieram à tona, já não consigo assistir sem deixar minimizado em minha consciência que, por trás daquela obra genial, talvez exista um canalha. Podemos citar outros: Picasso, um orgulhoso misógino e um pintor fora-de-série. Monteiro Lobato, inconteste racista e um dos autores responsáveis por me fazer amar os livros.

Quantos artistas fazem parte dessa lista de obreiros geniais e seres humanos falhos? Como reagir ao fato de que podemos gostar da arte e detestar o artista? Onde acomodar em nosso interior esse tipo de contradição?

Novak Djokovic está nesse grupo. Nas quadras, um gênio. Na vida, um babaca. E agora? Como lidar com esses sentimentos?

Vejam, não estamos apenas falando do caso de uma pessoa que optou por não se vacinar no meio da maior pandemia de nossas vidas. Isso já seria suficientemente grave, claro. Você não se vacina só por você; você se vacina pela sua comunidade. Vacinação é pacto coletivo e gesto de solidariedade. Mas o sérvio fez muito mais do que não se vacinar.

Em primeiro lugar, o tenista teve que admitir que tentou enganar o governo australiano a respeito de seu status de viagem. Em seguida, houve suspeita sobre o resultado de seu teste de Covid feito em dezembro; suspeitas que envolviam manipulação do resultado e falsa declaração de quando o teste foi feito.

Djokovic alegar ter sabido que estava com Covid no dia 16 de dezembro (alegação que foi usada por ele para tentar jogar o torneio sem precisar se vacinar). Mas, se foi esse o caso, por que no dia seguinte ele foi a um evento de tênis em Belgrado e colocou medalhas no pescoço das crianças que participaram expondo todas elas ao vírus?

Investigações chegaram a conclusões conflitantes: o portal alemão "Der Spiegel" disse que o teste de dezembro, na verdade, deu negativo. Quando, horas depois, a mesma reportagem foi rever o resultado, encontrou uma alteração para positivo. Mais confusão: a numeração dos testes não bate com a alegação da defesa de que o teste teria dado positivo seis dia depois de dar negativo.

Mas teve mais: Djokovic preencheu de forma equivocada a papelada do visto australiano omitindo que viajou da Espanha para a Sérvia antes de pousar em Melbourne (o "esquecimento" da viagem à Sérvia poderia facilitar sua entrada na Austrália). Quando flagrado no erro, culpou o assistente.

Não se trata, portanto, apenas de mais um caso de um negacionista dizendo "não quero me vacinar". O caso de Djokovic envolve suspeitas de ações ainda mais fraudulentas, repletas de tentativas de enganar de forma criminosa, imoral e indecente autoridades e órgãos públicos.

Se foi esse o caso, como parece ter sido, estamos diante do fato de um dos maiores tenistas do mundo ser, ao mesmo tempo, um grande babaca e um grande canalha.

É possível seguir se deixando encantar com sua genialidade como atleta? É possível continuar a vibrar com cada esquerda matadora, com cada direita magistralmente colocada num canto do fundo da quadra que deixa o adversário paralisado, com cada subida à rede tão improvável quanto espetacular, com cada bola recuperada quase junto ao público?

Talvez Edson Arantes do Nascimento, um homem repleto de falhas, tenha oferecido a solução ao se separar do gênio Pelé se referindo a ele como um outro, alguém diferente do Edson, um artista que existe a despeito do homem. Ao agir assim, Edson facilita muito as coisas para nós, simples mortais.

Acho que todos teremos reações distintas diante da situação. Há aqueles que conseguem separar as coisas e há aqueles que juntam tudo num mesmo caldeirão. A minha reação é a de não mais conseguir olhar para o tenista e enxergar o ser humano.

Atletas fora-de-série são artistas, e a função do artista é inspirar, é fazer com que nossa existência fique mais suportável. O artista é aquele que mastiga a vida e devolve pra gente de modo a conferir a ela algum sentido.

Mas que sentido à vida pode oferecer alguém que, no meio de uma pandemia que tantas vidas levou e tanta dor deixou, move montanhas para nos enganar só para não se vacinar? Que tipo de pessoa dedica tanto tempo e esforço por uma causa tão vulgar, desumana, mesquinha?

Como seguir acreditando que Djokovic é um tipo especial e inspirador de pessoa? Não consigo, e talvez inveje aqueles que consigam. Por isso, de forma cruel e triste, Djokovic, o homem e o atleta, estão mortos.