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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Seleção para a Copa devia ser convocada por plebiscito

Tite, técnico da seleção brasileira - Lucas Figueiredo/CBF
Tite, técnico da seleção brasileira Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

13/01/2022 14h47

Toda convocação de seleção brasileira envolve uma certa gritaria, e isso é parte do jogo. Somos, como dizem, 200 milhões de especialistas e, como tais, queremos dar nosso pitaco. Justo. Justíssimo. Rende conversa no bar, rende papo no jantar. Futebol é coisa séria e a gente gosta de alardear a importância do jogo nesse país que se define por ele. Mas na prática a gente não convence muita gente.

Uma Copa do Mundo é evento grandioso, que mobiliza e faz circular afetos, que tem a capacidade de unir uma nação como a nossa. A seleção brasileira é, ou deveria ser, muito mais do que um time. Ela carrega símbolos e signos de forte conotação cultural. É instituição social que constroi subjetividade e, como tal, deveria ser melhor cuidada. Ou, pelo menos, tratada de forma mais democrática.

O que acontece de fato é que os interesses que movem nosso futebol são os interesses financeiros de uma minoria de homens muito muito ricos. Contratos, lucratividade, performance, desempenho, eficiência: esses são os valores que contam porque eles rendem patrocínios.

Somos levados a acreditar que, como na cena política, é melhor que deixemos que um tipo muito específico de seres humanos tomem conta dessas coisas: homens brancos que andam por aí de terno e gravata, despacham de suas salas fechadas e bem refrigeradas, e são membros de uma classe determinada.

Nós, a população, não participamos de quase nada quando o assunto é tomar decisões que definirão os rumos desse jogo que amamos.

A cada nova convocação, por exemplo, saímos por aí mendigando uma explicação para coisas que a princípio não fazem sentido, e as explicações não são dadas porque esses caras que comandam o nosso futebol não dependem de que nós aprovemos as coisas que eles fazem ou dizem.

Falamos muito em democracia como valor universal, mas não lutamos para que ela exista para além do ambiente da política, onde ela, aliás, respira por aparelhos.

A CBF é uma associação privada. Seu corpo diretor é escolhido pelos mesmos de sempre. É na camaradagem, é na brodagem, é na base de regras que eles mesmos fazem para que eles mesmos executem (ou não) e para que eles mesmos policiem.

O treinador da seleção é apontado por esses homens e a gente que se conforme ou vá berrar na mesa de bar.

O modelo empresarial que nos controla é autoritário e ditatorial, e a gente nem liga. A gente aceita como se isso fosse uma lei da natureza e fala de política acreditando que política e democracia dizem respeito apenas ao voto e às eleições parlamentares, municipais, estaduais e presidenciais. Mas política não é isso, ou, pelo menos, está longe de ser apenas esse teatro.

Como o nosso futebol poderia ser mais democrático? Como poderíamos pensar num modelo que representasse a vontade de uma maioria? Como torná-lo mais acessível? Como deixar transparentes os interesses que articulam convocações, nomeações, apontamentos?

Transformações começam quando a gente se sente incomodado e inconformado. Não há transformação possível diante de um ambiente de conformismo. Por que estamos tão conformados?

Termino com O Rappa: paz sem voz não é paz, é medo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL