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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: "A gente vai ficar e cantar"

Toninho Cerezo e Reginaldo entram em campo pelo time do Atlético Mineiro em março de 1980. - Agência Estado
Toninho Cerezo e Reginaldo entram em campo pelo time do Atlético Mineiro em março de 1980. Imagem: Agência Estado
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

09/01/2022 14h43

Um acontecimento não pode ser medido por seu resultado imediato. Um acontecimento deve ser medido pelas aberturas que ele produz, ensina o professor Vladimir Safatle. É sempre um momento grandioso quando alguém consegue colocar em uma frase uma coisa que você, intuitivamente, sabia ser verdade mas até aquele instante tinha sido incapaz de articular. Meu entendimento sobre o futebol passeia por essa premissa. Nós, esses seres idiotizados a quem chamam de torcedor e de torcedora, guardamos essa compreensão em algum lugar no nosso interior. Não fosse isso, não suportaríamos algumas injustiças e derrotas, e nem superaríamos certas tristezas e abalos.

Todo torcedor e torcedora é, de certa forma, forjado e forjada na dor, mas certamente alguns mais do que outros. Quando meu amigo Fred Melo Paiva me convidou para assistir ao filme do Galo que ele produziu eu sabia que estava topando passar por um túnel que me levaria a um campo de emoções no qual eu acabaria vibrando, cantando e chorando por um time que não é o meu.

O documentário "Lutar, lutar, lutar", cujo título é tirado de uma parte do hino do Atlético, é uma investigação poética da alma do atleticano e da atleticana. A câmera quase sempre voltada para a parte mais sagrada de um jogo - a torcida - faz com que a gente se sinta dentro da massa. A história de injustiças calamitosas e de derrotas improváveis faz com que a gente se indigne como se fosse um deles. Assistir ao documentário é fazer uma viagem no tempo e, em algumas cenas, sentir na pele a dureza da concretude que só as arquibancadas da vida oferecem.

Nas lágrimas de Toninho Cerezo relembrando o que sentia jogando pelo Atlético eu me conectei ao que todos nós temos em comum: o sentimento de emoção que a gente só entende quando se percebe ligado a uma coisa maior e que passa, inevitavelmente, por se sentir unido a outras pessoas. Não a uma, não a duas, mas a milhares, a milhões.

Não é preciso ser atleticano para se deixar levar pela emoção do documentário. É preciso apenas estar vivo e ter a coragem de, por quase duas horas, vestir a pele de uma torcida que não é a sua.

Quando Victor defende o pênalti aos 46 do segundo tempo nas quartas de final da Libertadores de 2013 e evita a eliminação diante de um estádio lotado a gente entende um pouco mais a frase de Safatle. Já não estamos mais em 2013, mas em 1977, em 1980, em todas as derrotas injustas e dilacerantes pelas quais o atleticano e a atleticana passaram.

Poderíamos chamar de vingança, mas talvez vingança seja um sentimento muito mundano para a grandeza das aberturas que o futebol provoca na estrutura do tempo.

É como se houvesse uma compressão temporal que fosse capaz de absorver tudo o que ficou latente desde um determinado acontecimento. Como se 1977, 1980 e 2013 fossem apenas parte da complexidade de um mesmo presente. Como se cada um deles, analisado separadamente, fosse a superfície de um instante e não o acontecimento em si.

Pensar assim é o que me faz suportar algumas dores - no futebol e na vida. Um acontecimento não pode ser medido por seu resultado imediato. Bom ou ruim, justo ou injusto, ele apenas cria uma abertura que vai abrigar em si muitas latências e um tanto de vida, de potência realizadora, isso que se chama axé.

Torcer é saber que teremos que enfrentar múltiplas tristezas, injustiças, raivas, medos, perdas e separações, mas que haverá um dia, um instante, um momento em que tudo acabará se juntando num só acontecimento que reunirá em si a mesma alegria e potência da força que acendeu as estrelas.

Pode ser um título internacional, mas pode também ser um gol marcado no último minuto de um jogo que não vale nada. Pode ser um Estadual, mas pode também ser o inexplicável transe coletivo que implode em apoio ao time que acaba de ser rebaixado.

É circunstância na qual deixamos nossos corpos falarem e dançarem, explodirem em transe e em catarse. É quando não estamos mais pensando, apenas existindo. É quando nos percebemos possuídos por um Deus, por uma força divina. É em busca desse sentimento que retornamos ao estádio um domingo depois do outro.

A diferença entre o torcedor e o pagão é apenas essa: a gente sabe que esse dia chegará por mais que tenhamos que esperar por ele.

Assistir "Lutar, lutar, lutar" é mergulhar em todas essas sensações.

Ao final, a narradora Carol Leandro diz a frase que usei para dar título a esse texto. "A gente vai ficar e cantar".

Ficar, lutar e cantar. É, de fato, tudo o que podemos fazer. E já é coisa demais.

Quem quiser ver o documentário pode acessar o site filmedogalo.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL