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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Episódio envolvendo Djokovic convida à reflexão: o que é liberdade?

Novak Djokovic com o troféu do Masters de Paris de 2021 - Reuters
Novak Djokovic com o troféu do Masters de Paris de 2021 Imagem: Reuters
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

05/01/2022 19h56

Enquanto escrevo esse texto, o tenista sérvio Novak Djokovic talvez esteja voando de volta para casa depois de ser impedido de entrar na Austrália por não estar vacinado contra a covid. Djokovic tenta defender seu título no Australian Open, mas o governo local, cumprindo a lei, não está permitindo que ele entre no país sem comprovar ter concluído o programa da vacinação.

Das quase 3 mil pessoas entrando na Austrália por causa do torneio, apenas 26 solicitaram ao governo exceção à lei alegando motivos para não terem se vacinado. Os motivos vão de você ter uma doença que te impeça de receber a vacina até possuir algum transtorno mental em que, ao receber a picada de agulha, você possa se descontrolar e colocar a vida de outros em risco. Claro que se Djokovic estivesse dentro desses critérios ele não estaria indo a Melbourne disputar um dos mais importantes torneios de tênis do mundo.

Enquanto o tenista estava detido no aeroporto pelo governo australiano, seu pai achou de bom tom dizer que se ele não fosse liberado a população da Sérvia iria sair às ruas em protesto. O senhor Djokovic-pai disse que falava em nome da autonomia a que cada um temos direito, e que o caso representava muito para quem é um amante da liberdade.

Desde pequenos somos ensinados que liberdade é fazermos o que bem entendermos, na hora que der na telha, como a gente quiser. Que liberdade é poder optar entre muitos produtos na prateleira do supermercado. Comprar, acumular, adquirir. Liberdade, a gente aprendeu, tem a ver com poder fazer escolhas.

Essas escolhas envolvem as nossas vidas. Somos doutrinados a nos enxergar como indivíduos, células que existem separadamente no interior da vida social. Legislar a si mesmo, essa sim, é a verdadeira liberdade. Os adeptos da teorias acreditam que, movidos pelo bom senso, podemos fazer sempre as melhores escolhas a respeito das coisas que têm a ver com a nossa vida.

Assim, qualquer obrigação passa a ser uma privação da liberdade. Usar cinto, usar máscara, não poder sair por aí armado, ter que dirigir obedecendo a certos limites e, claro, pagar impostos. O Estado se torna o grande entrave entre a gente e esse tipo de liberdade.

O pensamento está longe de ser incoerente. Da maneira como fomos formados, faz todo o sentido associar liberdade ao indivíduo e suas posses e escolhas.

O que não nos contam é que indivíduos não existem porque ninguém pode existir nesse mundo sozinho. Nós não temos como sobreviver aos primeiros meses de vida sem o abraço, o toque, o acolhimento de uma outra pessoa. Não temos como sobreviver sem socializar, sem conversar, sem interagir, sem contar e escutar histórias. E se eu não posso existir sem você, minhas liberdades precisam necessariamente incluir as suas.

Se meu estado de saúde afeta o seu, como posso começar a falar que é meu direito colocar você em risco? Se a minha liberdade de dirigir a 150 km/h pode matar você, que liberdade é essa? Como a minha liberdade pode se sobrepor à sua?

Diante dessa constatação, como é possível falar em liberdade na dimensão do indivíduo?

Se eu posso ir ao supermercado e comprar o que bem entender sabendo que na saída vou me deparar com uma família de pessoas em situação de rua implorando uma migalha, que liberdade é essa que eu chamo de minha?

O conceito de liberdade, ao contrário do que nos disseram, envolve atenção, disciplina, consciência. Envolve enxergar o outro e suas necessidades. Envolve mergulhar em mim para entender quais são os meus reais desejos e conflitos. Envolve estar atento a essa eterna relação entre o meu eu e outros, os outros e o meu eu.

Liberdade é coisa séria e complexa demais para que a gente ache que ela opera na ordem do individual.

Vacinação é pacto coletivo, é gesto de amor, de afeto e de empatia. É você reconhecer que existe porque o outro existe. É avisar que estamos nessa juntos e que só sairemos disso quando todos saírem.

É aceitar que, a todo o instante, estamos nos afetando uns aos outros e que, sendo assim, vou fazer o possível para que eu te afete da melhor maneira possível, seja com meu corpo, com meus gestos, com meu comportamento, com minhas atitudes, com minhas palavras.

É, mesmo não sendo religioso, entender que as palavras "ame ao próximo como a ti mesmo" significam "ame o próximo porque é tu mesmo". Não perceber isso é ser convidado a chamar de liberdade o que, na verdade, é controle, servidão, submissão.

Tivemos que desenvolver às pressas uma vacina que fosse capaz de impedir o crescente número de mortes. Com mais tempo, poderíamos alcançar fórmulas que não causassem tantas reações, sem dúvida. Mas foi o que conseguimos fazer, enquanto comunidade terráquea, para evitar uma tragédia ainda maior.

Isso não quer dizer que a indústria farmacêutica seja a heroína dessa história. Quem está minimamente atento sabe que não é o caso. Fomos rápidos e brilhantes para chegar rapidamente a uma vacina minimamente eficaz, mas fracassamos retumbantemente ao não percebermos que havia uma segunda luta imediata: a que nos levaria a quebrar as patentes dos grandes laboratórios e vacinar o mundo inteiro, começando pelas populações dos países mais pobres.

Sobre liberdades, essa é de um outro tipo falso mas muito importante para o capitalismo: a liberdade de lucrar com calamidades e tragédias. A liberdade de enriquecer durante crises humanitárias. A liberdade de pinçar, entre os sete bilhões de corpos que aqui vivem, aqueles que podem morrer e aqueles que devem ser salvos.

Sem entender todas as camadas de perversidade do sistema, seguiremos apontando o dedo uns para os outros: olha lá, um antivax! Olha lá, um negacionista!, achando que, com nossa lábia, convenceremos as pessoas que é preciso se vacinar em nome de todos, todas e todes.

Na verdade, tanto faz convencer um ou outro soldado do sistema, esses que lutam bravamente pelo direito de seguirem sendo abusados e excluídos, a se vacinar. Se não mudarmos o sistema, essa será uma luta eterna. Eu contra você, você contra mim. Mudar a sociedade, um negacionista por vez. Tá bem, vamos nessa. Mas sem esquecer de olhar para o verdadeiro inimigo: o capitalismo.

Djokovic deu ao mundo uma declaração de canalhice e saiu da experiência com um atestado de babaca.

E o governo australiano, num gesto de responsabilidade e justiça, bem poderia despachar o tenista-mimado de volta para casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL