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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Aberto da Austrália concede a Djokovic o direito de ser canalha

Novak Djokovic vai disputar o Aberto da Austrália mesmo sem estar vacinado - FFT
Novak Djokovic vai disputar o Aberto da Austrália mesmo sem estar vacinado Imagem: FFT
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

04/01/2022 10h22

Um dos maiores tenistas da história, o sérvio Novak Djokovic, postou foto em suas redes sociais dizendo estar a caminho da Austrália para defender seu título no renomado Grand Slam. A exigência de vacinação contra a covid foi, portanto, revogada pela organização para o número um do mundo que é um simpatizante do movimento contra a obrigatoriedade de vacinação.

O argumento dessa galera é o mesmo de sempre: o corpo é meu e eu decido o que entra nele. Para a lógica do mundo liberal esse argumento é absolutamente coerente. As liberdades individuais são o bem maior: eu não uso máscara, eu não me vacino, eu não quero usar cinto de segurança, eu ando armado, eu dirijo na velocidade que eu quiser, eu existo enquanto indivíduo e tudo o que disser respeito a mim, ao meu corpo e a minha vida deveria ser de minha jurisdição e da de mais ninguém. Estado mínimo é nosso lema.

Claro que esses argumentos sofrem um apagão no momento em que homossexuais lutam pelo direito de casar e mulheres pelo direito de interromper uma gravidez. Sobre o corpo diariamente abusado de uma mulher as ordens são dadas pelo tal Estado e segue o jogo.

Mas para a turma de Djokovic o que importa é legislar sobre si mesmo. É isso o que entendem por liberdade, e liberdade é para eles o valor máximo e absoluto de uma existência. Aqui no Brasil mesmo já houve quem dissesse que preferiria morrer a perder a liberdade, uma reflexão que carece de coerência, de inteligência e de uma mínima lógica, claro.

Para os antivax, não importa que a vacinação tenha interrompido o número absurdo de mortes diárias nos países que a adotaram. Não querem saber de dados. Alegam uma suposta incerteza sobre os efeitos a longo prazo da vacina sem se preocuparem com os efeitos imediatos da covid.

Pois é: não temos ainda como saber que efeitos a vacina apresentará no futuro porque fomos obrigados a desenvolvê-la às pressas, mas temos perfeitamente como saber que, no presente, ela está salvando milhões de vidas. A minha e a sua, quem sabe, incluídas aí. O curioso desse argumento é que as mesmas pessoas que o utilizam inundam diariamente seus corpos de açúcares, alimentos processados, nicotina, álcool etc etc etc sem ter a certeza do que essas substâncias farão com seus organismos a médio e longo prazo. Mas a vacina, ah, pera lá, isso não!

Os antivax também não estão muito atentos ao fato de que o contágio se dá quando um corpo infectado se encontra com um corpo não infectado, e que, assim, não existe liberdade individual quando a minha saúde afeta a sua. Nesse contexto só é possível falar de saúde pública e de liberdade coletiva. Saúde privada e liberdade individual passam a ser ficções. A menos, claro, que você esteja se lixando para qualquer um que não seja você mesmo, seus interesses, seus sonhos, seus desejos. Um tipo de egocentrismo que ofusca a consciência, o bom senso, a coerência.

Djokovic é ídolo e sua opinião influencia multidões. A insensibilidade social e a falta de empatia que ele transpira não fazem bem a ninguém.

Mas, claro, como todo bom canalha antivax, o tenista não confirma não estar vacinado; ele alega que não vai dizer se está ou não, o que é um gesto que mistura canalhice, covardia e leviandade.

Disse tudo isso sem mencionar o fato de, na hipótese de não estar vacinado, ele ainda colocar outros em maior risco do que uma pessoa vacinada.

Vacinação é pacto coletivo: ou todos se vacinam ou o vírus continuará se modificando e tornará as vacinas - e a vacinação - ineficientes. Por isso a única luta possível seria pela quebra das patentes, que são propriedade dos grandes laboratórios como Pfizer e Johnson&Johnson, e pela imediata vacinação da população do mundo inteiro, começando pelos países mais pobres e terminando nos mais ricos.

Mas isso não será feito porque a única liberdade que o capitalismo respeita é a liberdade de lucrar, lucrar e lucrar mesmo diante de catástrofes e tragédias. Se tudo der errado, embarcam em seus foguetes para Marte ou coisa que o valha. E seus soldados antivax seguirão por aqui, largados a própria sorte. No capitalismo, os direitos de propriedade estão acima de tudo e de todos.

Djokovic pode ser o maior tenista da história do tênis masculino, mas, agindo como um canalha, talvez não devesse ser mantido entre os grandes.