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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Incidentes na Arena da Baixada sugerem: o que é violência?

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/12/2021 04h00

O que é violência? É atirar um copo de cerveja na cara de um bajulador de fascistas e fascismos ou é encorajar a população de um país a não se vacinar contra um vírus que pode ser mortal?

Até aqui, estamos reconhecendo como violência apenas o copo de cerveja atirado na cara de Luciano Hang, o famoso Véio da Havan, por um torcedor do Athletico no segundo jogo da final da Copa do Brasil, mas não a segunda alternativa.

O alvo do copinho de cerveja é um empresário amigo de Jair Bolsonaro que, assim como o mandatário, desde o começo da pandemia colabora para que o vírus seja usado como arma biológica não apenas no discurso mas também promovendo aglomerações de funcionários sem máscaras em inaugurações de lojas durante momentos nos quais o contágio era muito elevado.

Além disso, o empresário, que é citado no 'Pandora Papers', manteve por quase vinte anos uma empresa em um paraíso fiscal com mais de 100 milhões de dólares. Mas mandar dinheiro para fora não está na lista das violências que entendemos como tal.

A gente compreende a violência quando ela é praticada por uma pessoa, especialmente quando praticada por corpos negros e/ou periféricos e especialmente quando a vítima é um corpo branco, masculino e poderoso ou alguma propriedade de um corpo desses, mas a gente tem uma certa dificuldade em enxergar a violência quando ela é praticada por uma instituição.

Eu argumentaria que são essas as maiores violências contra as quais devemos nos levantar, e que as violências que usamos na luta contra essas violências institucionais deveríamos chamar de contra-violência.

O Estado tem o monopólio da violência e seus porta-vozes, os grandes empresários da nação, podem fazer o que bem entenderem que não serão punidos.

O bolsonarismo é um tipo de fascismo e a essa altura do genocídio eu não acho que haja muita gente que duvide disso. Tirantes os 20% dos nossos compatriotas que são orgulhosamente fascistas, os demais já entenderam onde nos metemos. E uma regra básica sobre o fascismo é a seguinte: não existe fascismo sem o apoio do empresariado.

Agora façamos um exercício: Se estivéssemos assistindo a um filme ambientado durante a Segunda Guerra Mundial e víssemos um cidadão qualquer atirar um copo de cerveja na cara de um nazista, como reagiríamos?

Precisamos de quanto recuo histórico para absorver o que está acontecendo no Brasil? Vamos mesmo nos concentrar em dizer que um copo de cerveja atirado na cara de um cidadão que financia tantas violências institucionais é o mesmo que se nivelar ao ciclo de violências que estamos vivendo?

Pode ser uma enorme falha de caráter em mim, mas já não consigo sentir empatia por fascistas. Não diante de tanta morte, de tanta miséria, de tanta dor. Diante de tantas perdas, de tanta hipocrisia, de tanta delinquência.

Mas quem define o que é violência?

Entendemos muito bem as violências contidas em vidraças quebradas durante uma manifestação, mas não somos muito bons em perceber a violência que moram em coisas como a reforma trabalhista e a consequente uberização de nossas vidas. Entendemos a violência quando ela se manifesta em propriedades, mas não a que se manifesta na perda de direitos básicos.

Não percebemos com muita rapidez a violência contida na diminuição de circulação de transportes públicos durante uma pandemia, iniciativa que fez com que trabalhadores de serviços essenciais tivessem que ir e voltar do trabalho aglomerados nos vagões e nos ônibus, mas enxergamos rapidamente a violência na imagem em chamas da estátua de um predador racista.

Entendemos a violência quando um assaltante invade nossa casa, mas não quando a polícia chega atirando nas favelas e nas periferias.

Enquanto o amigo de Bolsonaro e apoiador do fascismo bolsonarista estava tendo o rosto lambido pelo álcool alheio, num camarote ali ao lado uma cidadã achou de bom tom imitar macacos para tentar ofender outros torcedores presentes ao estádio. As imagens viralizaram e ela teve que ir prestar depoimento. Deu lá suas explicações ao delegado e voltou para o seu dia a dia faceira, como se nada fosse.

Que outras provas são necessárias para configurar crime de injuria racial além do vídeo em que vemos ela fazendo os declarados e gráficos gestos?

Já o torcedor do Athletico que atirou sua cerveja em Hang foi demitido e declarou via Twitter que sua vida virou um inferno.

Que sociedade é essa que tritura os corajosos malucos que lutam com seus copinhos de cerveja contra fascistas e deixa uma racista sair andando livremente por aí? É uma sociedade adoentada, dilacerada, esvaziada de consciência.

Um dia num futuro nem tão distante esse copinho de cerveja atirado na cara do empresário bolsonarista vai ter seu valor reconhecido. Nesse mesmo dia, qualquer um que fizer gestos racistas dentro de um estádio só sairá de lá algemado.

"Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira". Salve Sergio Vaz.