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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Por que um time de futebol precisa dar lucro?

Projeto de clube-empresa é visto no Cruzeiro como alternativa para problemas financeiros do clube - Divulgação/Cruzeiro
Projeto de clube-empresa é visto no Cruzeiro como alternativa para problemas financeiros do clube Imagem: Divulgação/Cruzeiro
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

07/12/2021 10h56

A lógica empresarial infectou todas as camadas de nossas vidas. Opera-se da chave do "somos empresários de nós mesmos" e o vocabulário é todo construído para que nada escape da ordem estabelecida: investimos em relações, gastamos ou ganhamos tempo, administra-se o jogo dentro de campo.

Flexibilizar, gerir, economizar. Gestão, custo-benefício, planilhas, desenvolvimento, progresso, ordem, diagnósticos, soluções. Nossas vidas e tudo o que as envolve só podem funcionar dentro desses ambientes. Fora disso o que há é selvageria. Homens lobos de outros homens. Pancadaria. Subdesenvolvimento. Burrice.

A dimensão da economia é o imperativo moral de nossas vidas. Gastar menos do que se ganha. Lucrar. Quem assim opera é bem-sucedido. Quem falha é um "loser".

Dentro dessas ideias, não se debate mais o que é um time de futebol. Times estão virando empresa e qualquer opinião que se oponha a esse caminho é imoral porque, claro, não se pode dever dinheiro, ninguém pode gastar mais do que ganha - como se controlar um time, um estado, um país fosse a mesmíssima coisa que controlar nossas casas. Quem deve é um fracassado e ponto final. A norma se encerra aí. Não há nenhum tipo de reflexão sobre o que é um time de futebol e quais suas finalidades em nossa sociedade.

Sabemos que um time não é uma empresa. Times fazem parte de nossas formações subjetivas. Nos afetos, estão mais perto do que entendemos por pessoas do que por empresas. Não se ama uma empresa. Não se desespera por uma empresa. Não se vibra por uma empresa. Por que, então, achar que o caminho natural das coisas passa por transformar nossos clubes em empresas? Para dar lucro para quem exatamente?

"Porque precisamos sempre arrecadar e lucrar. É necessário ser economicamente saudável". Dizem isso como se essa economia que conhecemos fosse uma lei divina. Imposta por um Deus austero que passa o dia fazendo contas e premia os que operam no azul.

Times deveriam ser associações sem fins lucrativos que pertencessem e fossem controladas por seus membros. Decisões sobre como cuidar da base, que tipo de futebol esse time vai jogar, quais os objetivos sociais etc deveriam ser tomadas por todos os interessados no escudo, e não ficar a cargo de "gestores" muito atentos ao lucro e pouco interessados nos aspectos subjetivos e afetivos que envolvem uma camisa.

Mas essa não é uma opinião popular e nem sequer uma opinião que esteja pra jogo. A despeito dessa lógica empresarial ser um fracasso retumbante no mundo inteiro para a vasta maioria das pessoas e dos times (à exceção de uns poucos acumuladores de fortunas), é esse o lema.

Nada fora dessa ordem empresarial-liberal pode existir mesmo que não estejamos nem um pouco felizes ou descansados ou animados ou otimistas com a vida. É que, entendam: fora dessa dimensão empresarial só existe selvageria, imoralidade ou, pior ainda, os comunistas. Então, mesmo que esteja horrorosa a vida, melhor seguir assim porque do outro lado poderia ser muito pior. Nem perca seu tempo buscando alternativas porque só existe um caminho e ele é o da cartilha da economia liberal.

É sob essas crendices que o jogo e os times vão morrendo um pouco a cada dia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL