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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Tem dias em que o machismo me faz querer desistir do futebol

Corinthians recebe o Grêmio - Felipe Szpak/ Corinthians
Corinthians recebe o Grêmio Imagem: Felipe Szpak/ Corinthians
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

05/12/2021 18h37

Eu liguei a TV para torcer para o meu time, como faço duas vezes por semana, e em poucos minutos já tinha me arrependido. Ainda no primeiro tempo, quando jogadores do Grêmio e do Corinthians ameaçaram perder a cabeça e ensaiaram uma briga infantil eu escuto o narrador do SporTV "narrar" a briga simulando as vozes dos brigões: "Sua mãe tem bigode!", "Não! É a sua que tem". E, em segundos, o jogo estava encerrado pra mim.

Coloquei no mudo e pude ver, claro, quantas vezes a câmera perseguiu um rosto feminino branco de cabelos lisos que pudesse ser enquadrado durante a transmissão. O futebol gosta de mulher desde que seja para perpetuar padrões e opressões.

O machismo e a misoginia estão por todos os lados e acho que qualquer torcedora atenta se pergunta por que mesmo a gente continua assistindo a esse espetáculo que tantas vezes é deplorável?

Pra que meter mulheres numa briga de homens? Pra que fazer comentários sobre o que temos ou deixamos de ter em nossas caras? Pra que chamar as mães para o centro de um palco tão infantil, bobo, babaca? Não eram mulheres brigando, não eram mulheres jogando, não eram mulheres fazendo um papel vexatório. Mas o comentário precisava nos citar.

A todo o instante somos citadas de forma pejorativa, debochada. A todo instante somos ridicularizadas, mesmo quando o ridículo não passa de homens chiliquentos se peitando em campo.

"Ah, mas o narrador é um cara bacana, você está sendo chata". Gente, ver o machismo e a misoginia em Bolsonaro é a coisa mais fácil do mundo. O desafio é ver "nos caras bacanas" de nossas vidas.

E chato, francamente, são os dados da violência contra a mulher. Pois é, a mesma estrutura que se permite tirar um sarro de nossos pelos faciais é aquela que, no fim do dia, nos mata. Trata-se de um mesmo sistema de exclusão, objetificação e mutilação. Basta ser alguém minimamente decente para berrar contra o goleiro Bruno, mas para lutar a luta de todos os dias vamos precisar dos homens de verdade.

É muito bacana quando um cara se diz aliado do feminismo. Mas isso não leva a lugar nenhum e já não engana mais ninguém. Maravilhoso mesmo seria que os caras bacanas agissem como um aliados da causa.

Mas se é fácil a gente se desesperar, não é assim tão difícil a gente voltar a acreditar.

Minutos depois de eu publicar esse texto, Everaldo Marques, que narrava Corinthians e Grêmio no SporTV, me ligou. Batemos um papo amigável e sincero.

EV disse que me ligava para pedir desculpas e contextualizar o que falou no ar.

A ideia dele era a de mostrar como a briga em campo soava infantil e, para tanto, recorreu a um vocabulário infantil. Mas contou que, ao ler esse texto, entendeu por que tinha deslizado e que, a partir de hoje, buscaria um novo vocabulário para narrar brigas em campo. Imediatamente pensou em "cara de mamão" ou coisa que o valha. Rimos e eu agradeci a coragem do telefonema porque não é todo dia que a gente acha espaços para diálogos construtivos e honestos.

É fácil perder a esperança, mas mais fácil talvez seja reconquistá-la. Seguimos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL