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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: "Gritar Galo é mais gostoso do que gritar é campeão"

Torcedores do Atlético comemoram o titulo de campeão brasileiro 2021 nas ruas de Belo Horizonte. 2/12/2021 - Alexandre Rezende/Folhapress
Torcedores do Atlético comemoram o titulo de campeão brasileiro 2021 nas ruas de Belo Horizonte. 2/12/2021 Imagem: Alexandre Rezende/Folhapress
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

03/12/2021 13h56

A frase que dá título a esse texto é do jornalista Mario Marra e foi dita no canal ESPN Brasil durante o SportCenter dessa sexta-feira, 4 de dezembro. Ao lado da também jornalista e apresentadora Mariana Spinelli, Marra chorou ao explicar o sentimento que é torcer para o Atlético.

Antes dele, Spinelli, falando a partir do coração, soltou a voz para fazer a mesma coisa: tentar explicar o que não tem explicação, que é o amor que a gente sente por uma camisa e o que essa camisa representa em nossas vidas.

É bastante difícil assistir ao trecho do programa, em que Spinelli e Marra fazem suas declarações de amor ao Galo, sem chorar. Os dois se permitiram falar o que estavam sentindo e não o que estavam pensando, e ter a coragem de mobilizar afetos tão nobres é sempre muito potente.

Mas a frase que ficou na minha cabeça foi essa que escolhi para dar título ao texto. "É mais gostoso gritar Galo do que É campeão".

Marra diz que Galo é um grito aberto, e ele tem razão. Galo, ao contrário de "É campeão", nunca foi grito entalado na garganta. Não foi quando o time estava sendo prejudicado por arbitragens marotas, não foi quando o time jogava mal, não foi quando o time era fraco, não foi quando o time perdia, não foi quando o time ganhava mas não emplacava.

Mesmo quem não torce para o Atlético pode entender esse sentimento que Marra explicou tão poeticamente: gritar Galo é mais gostoso do que gritar É campeão.

É, afinal, o que todos e todas nós temos em comum, esse amor doentio por uma camisa. Pensar nisso faz com que entendamos que não somos assim tão diferentes uns dos outros. Se emocionar com a emoção de um rival é, além de sinal de saúde, a certeza de que, um dia - quem sabe, talvez - consigamos nos unir pelo que temos em comum mais do que nos afastar pelo que temos de diferente.

Eu só argumentaria com o Marra no seguinte aspecto: no final do depoimento ele diz, para que o telespectador tenha a certeza de sua imparcialidade, que as opiniões que ele emite não passam pelo coração. Eu realmente acredito que as nossas melhores opiniões são aquelas que passam pelo coração e, nesse trajeto, caminham agarradas a coisas como ética e respeito, mas não tentam jamais se agarrar à imparcialidade já que imparcialidade é uma característica que nunca existiu porque somos sempre movidos por nossos afetos mesmo quando não desejamos isso.

Hoje Marra falou a partir do coração e, ao fazer isso, foi gigantesco. Obrigada, Mario Marra e Mariana Spinelli. Vocês melhoraram meu dia. E vida longa ao Galo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL