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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Hulk, Reinaldo e uma história de amor que ainda não acabou

Reinaldo comemorava seus gols com punho cerrado em protesto contra ditadura - Delfin Vieira/CPdoc JB
Reinaldo comemorava seus gols com punho cerrado em protesto contra ditadura Imagem: Delfin Vieira/CPdoc JB
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

30/11/2021 14h11

Reinaldo foi um dos maiores jogadores que já vi jogar. Centro-avante de habilidades raras, finalizador sem igual, homem de consciência social. Essas são características que normalmente não andam juntas no futebol.

Reinaldo jogou num Atlético que era enorme, mas que não conquistava títulos que todos julgavam ser importantes. Reinaldo foi prejudicado por se posicionar politicamente durante a ditadura militar. Reinaldo poderia ter sido ainda maior do que foi se o mundo em que vivemos não fosse tão covarde e perverso.

Mas a gente nunca sabe sobre o tempo das coisas e tem dificuldade em entender que as histórias não acabam, elas são continuadas.

Se um anjo dissesse a Reinaldo - lá quando ele estava sendo punido pela sociedade autoritária em que vivíamos -, que dali a algumas décadas ele estaria sentado nas cadeiras do Mineirão testemunhando um Atlético ainda melhor do que aquele em que ele reinou ganhar o Brasileiro, e que, nesse mesmo jogo, o maior atacante do Brasil faria um gol e comemoraria com o gesto que ele imortalizou, Reinaldo provavelmente diria que o anjo estava maluco.

Mas a gente nunca sabe o tempo das coisas.

O Atlético em que Reinaldo jogou é o mesmo Atlético em que Hulk joga. É um time só, de mãos dadas com aquele Galo da década de 80. Com o punho cerrado e erguido, Reinaldo lutou contra um sistema político cruel e totalitário. Vivíamos sob uma ditadura e, fazer isso em tempos tão brutos, só mesmo os super-herois.

Agora já não somos mais controlados pelos generais da ditadura, mas sim pelos que chefiavam os porões daquela ditadura. E quis o destino que numa mesma época sombria de nossas vidas, um mesmo Galo vingador encontrasse em seu elenco um atleta suficientemente sensível para nos mostrar que a história não acaba, ela é continuada.

O que ontem parecia uma derrota talvez não seja porque o jogo ainda não acabou. Que o bonito e justo encontro entre Hulk e Reinaldo nos sirva de lição para que a gente entenda que um acontecimento não pode ser medido pelo seu resultado imediato. E, pensando assim, que lindo seria se no momento em que o Atlético fosse campeão brasileiro Reinaldo entrasse em campo e recebesse sua medalha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL