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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Qual o lugar de Deus no futebol?

Weverton tem seu momento de fé antes da final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo - Juan Mabromata / AFP
Weverton tem seu momento de fé antes da final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo Imagem: Juan Mabromata / AFP
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

29/11/2021 16h48

Minha irmã uma vez me contou uma piada que nunca esqueci e que me ocorreu usar para começar esse texto. Numa cidadezinha do interior do Brasil havia dois irmãos muito endiabrados que tocavam o terror. O mais velho tinha 10, o menor tinha 8. Os garotos eram tão arruaceiros que um dia, depois da missa, os fieis pediram que o padre os chamasse para uma conversa que pudesse corrigi-los. O padre chamou apenas o mais velho e, depois de uma bronca, disse a ele: "E agora eu te pergunto, meu filho: onde está Deus?". O garoto ficou pálido e emudeceu. O padre, se sentindo confrontado, falou mais alto: Onde está Deus? A criança entendeu que estava em apuros e, tremendo, silenciou mais uma vez. O padre perdeu a cabeça e berrou: Onde está Deus? Onde está? Me diga! O menino saiu correndo da Igreja, chegou em casa esbaforido, puxou o irmão para o quarto e disse: Dessa vez a gente se ferrou total. Deus sumiu e estão achando que foi a gente.

Conto isso para dizer que Deus anda sumido. Da vida, do jogo. Isso, claro, se a gente acreditar num Deus feito à nossa imagem e semelhança: um velho de barbas que, dependendo do dia e do humor, pode ser mais punitivo do que o Diabo. Um Deus que, a depender do jogo, escolhe um time, senta e torce muito - mas que nem precisava porque, né, trata-se de Deus.

De fato, ao final da Libertadores, Palmeirenses e Flamenguistas devem ter falado com Deus de jeitos bastante diferentes.

Quando escutei o goleiro Weverton, na entrevista que deu saindo de campo, falar de um Deus bastante específico, a quem ele, de três em três segundos, dedicava a vida, a vitória, as defesas, o título, enfim, tudo o que há de bom e de justo nessa vida, me senti incomodada. Enquanto o incômodo me invadia, uma voz dentro de mim dizia: quem é você para saber pelo que esse cara passou para ter Deus em tão alta conta? Quem é você para dizer como Weverton deve se relacionar com o divino?

Claro que há limites para tudo e se esse discurso feito em nome de Deus vier acompanhado de LGBTfobia, racismo, machismo e misoginia essa segunda voz que tentava me acalmar seria imediatamente silenciada. Só que o que escutei foi apenas uma louvação a Deus, um agradecimento - bastante longo e repetitivo, mas, ainda assim, apenas um agradecimento.

A relação com Deus é dessas coisas que não deveria chegar às nossas vidas embaladas em regras. Num mundo bacaninha e justo, cada um de nós entenderia como falar com Deus partindo de uma ideia de Deus, e de comunicação, que fizesse sentido a quem somos.

Para mim, por exemplo, Deus é Ela porque, se existir uma entidade que criou tudo isso, só faz sentido que Ela seja mulher. Homens, como a gente tem visto, são bons em destruir, mas não muito em tecer, erguer, criar. Não muito em colaborar e se solidarizar.

Então, esse Deus que parece ter se mandado daqui só poderia ter sumido se ele fosse alguma coisa que criamos a nossa imagem e semelhança, e eu não acho que tenhamos criado Deus; a relação deveria ser a oposta.

Eu acredito no Deus de Espinosa, essa que se manifesta em todas as coisas, que é responsável pelas flores e pelas órbitas do Planeta, pelo por do sol e pelas florestas, pelas marés e pelas chuvas. Pelo amor, pelos encontros, pela vida.

Durante um jogo de futebol, esse Deus em que acredito se manifesta quando uma torcida entra em transe coletivo, aparece a cada convulsão, a cada triangulação perfeita, a cada gol, a cada tabela improvável. Deus está nos gritos de olé, que surgiram justamente emprestados dos gritos de "Ala", ecoado por nossos ancestrais em volta do fogo todas as vezes que, durante danças, alguém parecia estar invadido por uma força encantada, misteriosa e divina. "Ala, ala, ala", com o tempo, foi para as touradas, para o futebol e virou "Olé, olé, olé".

Esse meu Deus que é mulher está nos dribles, na ousadia, na criatividade dentro de campo. Está na jogada impossível, nas viradas de última hora, no gol feito no minuto derradeiro, nas conquistas e também nas derrotas porque elas formam caráter.

Mas essa sou eu. E a gente constrói uma ideia de Deus com base em nossas experiências particulares. Exatamente por isso o Deus de Weverton é muito diferente do meu - que é minha.

O importante aqui é não tentar enfiar nosso Deus goela abaixo da outra pessoa e, em vez de dizer como aquela pessoa deve levar a vida dela com base nas regras de um Deus que eu imagino ser o verdadeiro, apenas levar as nossas vidas guiadas pela cartilha de crenças que consideramos ser a correta.

Por isso, não sem razão, se critica a atuação das religiões no Brasil, especialmente das evangélicas, mas pouco se fala sobre o papel de amparo e acolhimento que elas oferecem nos lugares em que o estado ou falta ou só entra armado e para matar.

É uma pena que tenhamos que conviver com o que algumas dessas religiões oferecem como preconceitos, intolerâncias, cagações de regras e mercantilização da fé - e falo de todas as religiões aqui -, mas seria importante compreender que populações abandonadas vão se apegar ao que for conveniente para se salvar.

O que não gostamos de dizer, nem de reconhecer, é que com a pregação que envolve preconceito e intolerância muitas vezes vêm um pão, um abraço, um teto. Papel do Estado, sem dúvida. Mas no Brasil, a cada dia que passa, o estado só serve mesmo para destruir, isolar e metralhar.

Então, se o que Weverton disse ao final do jogo incomodou, talvez a gente devesse parar para pensar como viemos parar aqui; o que ele disse - e como ele disse - explica muito do caminho que percorremos para chegarmos ao ponto de elegermos um presidente que, em nome de Deus, comete as maiores atrocidades e, ainda assim, é aplaudido pelo cidadão de bem e pelo homem de fé.

Termino com uma história que envolve meu sobrinho Francisco. Ele tinha oito anos quando comeu alguma coisa que o fez vomitar. Depois de vomitar, Francisco perguntou se no dia seguinte estaria bem para ir à aula e alguém que estava com ele, e que não lembro mais quem era, disse: "se Deus quiser você amanhã estará ótimo". Francisco então perguntou: "Mas então por que Deus quis que eu vomitasse tanto hoje?".

Seguindo a lógica do meu sobrinho, teria sido interessante saber de Weverton por que Deus teve inclinações pelo Palmeiras diante do Flamengo na final. Talvez, desse jeito, a gente saísse do discurso religioso que tanto incomodou e tirasse do goleiro-craque uma resposta engraçada, inusitada. Fica para uma próxima porque, ao que tudo indica - e infelizmente -, o Palmeiras não vai parar de vencer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL