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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: A Conmebol não gosta do futebol

Solitário, torcedor do Flamengo lamenta no Estádio Centenário após derrota para o Palmeiras na final da Libertadores - REUTERS
Solitário, torcedor do Flamengo lamenta no Estádio Centenário após derrota para o Palmeiras na final da Libertadores Imagem: REUTERS
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

28/11/2021 12h59

A final da Libertadores não é mais tanto já não é uma final quanto é um show. Ao pior estilo de um Super Bowl, a tentativa de espetacularizar o evento fica entre o triste e o cafona triangulando pelo ridículo.

Antes de mais nada, o jogo único, disputado longe das torcidas finalistas, é uma perversão. Vai quem tem dinheiro para a aventura - e sabemos bem quem tem dinheiro para uma aventura desse tipo atualmente.

O torcedor que pode pagar para estar perto do seu time numa final não é aquele que normalmente frequenta as arquibancadas. É o tipo de torcida que senta e aplaude. Pouco canta e não entra em convulsão quando o time mais precisa desse barulho.

Que tipo de jogo teríamos com os estádios lotados de suas torcidas. Por que privar o torcedor de baixa renda do jogo mais importante do ano? Essa elitização do futebol vai fazer o que pelo jogo?

Durante a final, quando os times mais precisaram das vozes ao redor o que ouvíamos era alguma coisa perto do silêncio. Quando as câmeras mostravam as expressões víamos olhares de tristeza e desespero.

Como teria reagido o Flamengo diante de um Maracanã lotado e em transe? E o Palmeiras dentro de seu estádio lotado teria sido capaz de resolver a parada mais rapidamente? Não sabemos, claro, mas acho que poucos duvidam que teríamos tido um outro tipo de jogo se tivéssemos mantido dois jogos perto das torcidas com boa disposição para deixar grande parte dos ingressos com preços acessíveis.

Em relação ao show, nada contra Anitta - muito pelo contrário - mas imitar tudo o que fazem os gringos além de ridículo deixa o evento cheio de uma frieza que não é a nossa cara. Será que não temos imaginação para fazer alguma coisa mais alinhada ao que somos?

A verdade é que o futebol não basta mais. Nada é feito para que o jogo se torne mais criativo, ousado, corajoso. As mudanças envolvem a forma de cronometrar - igual a dos europeus - os shows que antecedem as partidas, levar o jogo para longe das torcidas, entrar em campo todo mundo juntinho e em fila diante de uma música devidamente registrada como sendo o tema da Libertadores.

Mudanças também na transmissão. Hoje, narradores fazem propaganda de produtos no meio da narração, a tela diminui a todo o instante para trazer a mensagem do anunciante. O primeiro gol do Palmeiras, aliás, foi invadido pela mensagem cordial de um patrocinador.

A emoção e a euforia são falsamente estimuladas. Os berros do narrador não fazem mais sentido com o que vemos em campo. Alguma coisa fundamental está desencaixada e se não recuperarmos nossas almas esse jogo que amamos vai entrar para o mundo dos zumbis. Uns zumbis um pouco diferentes porque, embora sem alma, eles têm a euforia de um robocop programado para dançar e pular de forma descoordenada enquanto o mundo acaba ao seu redor.

A Conmebol não gosta de futebol. Gosta de dinheiro, de lucro, de poder - e se para obter tudo isso for preciso se curvar humilhante e cafonamente a tudo o que fazem na Europa e Nos Estados Unidos, que assim seja.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL