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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Precisamos falar da torcida do Cruzeiro

Torcida do Cruzeiro no Mineirão - Pedro Vale/AGIF
Torcida do Cruzeiro no Mineirão Imagem: Pedro Vale/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

26/11/2021 11h04

Que força é essa que faz a gente amar a camisa de um time com tanta devoção? Que faz a gente lotar um estádio mesmo quando o time atravessa a pior fase da sua história? Que faz a gente cantar e pular manifestando um tipo de alegria que não faz sentido diante da situação? Que força é essa que faz a gente se entregar de corpo e alma ao clube do nosso coração?

Lotar estádio quando o time vai bem é a coisa mais fácil do mundo. Lotar estádio para tentar evitar um rebaixamento também não é tão difícil assim; é quase um dever moral. Mas e lotar estádio em convulsão catártica quando o time vai mal, já não pode mais subir, já não pode mais cair, já não pode mais nada e é o 11º colocado na série B? Fazer isso mesmo sabendo que, por uma crueldade cósmica, a pior fase da sua história é, ao mesmo tempo, a melhor fase da história do seu grande rival.

O que a torcida do Cruzeiro fez no Mineirão em jogo da série B que não valia mais nada, e que marcou a despedida de Rafael Sobis, é comovente e inspirador. A gente não ama um time por ele ser multi-campeão, a gente ama, também, por causa das falhas.

A gente ama nas crises, nos tropeços, nos fracassos. A gente ama na saúde e na doença. Um tipo de amor que, quem não gosta de futebol, custa a entender. Nos chamam de loucos e de loucas. Nos chamam de infantis. Nos chamam de ridículos e de ridículas. E talvez sejamos tudo isso mesmo, por isso gosto tanto da música "Aqui tem um bando de loucos", do Corinthians.

Que bom que podemos ser os loucos, os esquisitos, os ridículos. Nelson Rodrigues me ensinou que acessar todas as dimensões do ridículo é ato de coragem.

Ganhar é muito bom, mas é nas horas difíceis que a gente tece a verdadeira tapeçaria dos afetos que importam. A torcida do Cruzeiro me emocionou demais. Que 2022 seja um ano de reconciliação, de retomada de rumo, de arrebatamento para essa torcida enorme e apaixonada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL