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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Aprendendo a Formigar o que há de bom nessa vida

Formiga durante treino da seleção brasileira antes de seu jogo de despedida contra a Índia. 24/11/2021 - Lucas Figueiredo/CBF
Formiga durante treino da seleção brasileira antes de seu jogo de despedida contra a Índia. 24/11/2021 Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

25/11/2021 13h07

Nelson Rodrigues só escreveu que toda a unanimidade era burra porque não conheceu Formiga. Formiga é a nossa unanimidade, é paixão nacional, é atleta celebrada até por aqueles que não gostam de futebol. Sete Copas, sete Olimpíadas, dezenas de prêmios, de títulos, de medalhas. A carreira mais longeva do futebol mundial - e, mesmo que não seja, para a finalidade desse texto vai ser porque, para seguir com Nelson Rodrigues, ando tentando desviar de meu caminho os idiotas da objetividade.

Formiga aposenta nesse 25 de Novembro a camisa que usa desde 1990, uma camisa que em anos recentes perdeu seu encanto mas que, a depender de quem a use, recupera seus poderes. É o caso dessa mulher que passou por tantas coisas que só ela sabe quais foram para chegar onde chegou.

Depois de crescer escutando que futebol não era coisa de mulher, e que viver de jogar bola era um sonho estúpido, testemunhou o futebol feminino brasileiro sair do obscurantismo, foi agente na luta pela diminuição do preconceito, jogou no PSG, onde também foi aclamada, e agora, ainda atleta do São Paulo, se despede da seleção em partida contra a Índia.

Formiga é tanta coisa no nosso futebol que devia virar verbo e bem poderia ser citada sempre no plural: "Formiga jogaram muito hoje". Ou: "No dia 24 de novembro, Formiga se despediram da seleção".

Havendo futuro, as gerações de mulheres que estão por vir deverão muito a essa mulher. Quando barreiras são rompidas, como fez Formiga tantas vezes, esse novo ambiente de existência nunca mais deixa de conter uma parte daqueles que trabalharam pelo rompimento e pela inclusão de tantos.

Não gosto da ideia de celebrar aqueles que "não desistiram" como se isso fosse um enorme mérito ou sinal de força porque muitas de nós foi obrigada a desistir e isso não torna essas mulheres menos potentes ou mais fragilizadas. Para que consigamos fazer o que Formiga fez precisamos que, antes dela, muitas outras tenham lutado e, de certa forma, desistido.

Formiga pendura hoje sua camisa amarela - cujo número talvez devesse ser aposentado com ela - mas não sai de cena. Aos 43 anos tem muita coisa a fazer ainda pelo esporte que ama. Isso, claro, se ela assim desejar. Porque se seu desejo for ficar à beira de uma praia, ou no topo de uma montanha, reunida com amigas e amigos, dançando, celebrando suas conquistas e formigando a vida, que assim seja.

Formigar a vida é - ou deveria ser - direito de todas e de todos. E, ainda assim, Formiga já terá feito muita coisa pelo futebol, pelas mulheres, pelas futuras gerações de atletas, de esportistas e de cidadãs.

Obrigada, Formiga. Por sua causa, nos tornamos mais fortes, confiantes e seguras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL