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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Jogador australiano sai do armário e deixa a gente sonhar

Joshua Cavallo, do Adelaide United, da Austrália - Reprodução/Instagram
Joshua Cavallo, do Adelaide United, da Austrália Imagem: Reprodução/Instagram
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/10/2021 10h56

A última fronteira da libertação sexual é o futebol. Talvez não haja meio mais machista e misógino do que o ambiente da bola. Ser mulher e seguir apaixonada por esse esporte é um desafio diário, acreditem. O que nos faz continuar são dias como os de hoje, quando acordamos com a notícia de que um jogador de futebol australiano chamado Joshua Cavallo, que joga pelo Adelaide United, saiu do armário em suas redes socias.

Mas teve mais: a atitude foi seguida de elogios públicos de muitos ídolos do esporte, como Piqué, e também de clubes gigantescos como o Barcelona e a Juventus. Até esse momento não vi nenhuma manifestação no futebol profissional brasileiro (atualizarei se houver).

Tudo isso acontece um dia depois da punição aplicada pelo Minas Tênis Clube a Mauricio Souza, do vôlei, por declaração homofóbica em suas redes sociais. É a vida tentando fazer a gente não desistir de acreditar que esse mundo pode mudar.

Escrevi aqui sobre o medo que alguns têm com a ideia de dois homens se relacionando intimamente (sabemos muito bem o que a ideia de duas mulheres se relacionando intimamente faz com esses mesmos cidadãos de bem). Sacam a Bíblia para defender seu direito de odiar, saem pregando preconceitos e intolerâncias em nome de um Deus que age como o diabo. Não fazem muita grita com a lesbiandade, mas a viadagem, essa deixa esses homens transtornados. Misoginia e LGBTfobia são amigas íntimas, essa é a verdade.

A coragem de Joshua não é um acontecimento isolado na história. Antes dele, o jogador inglês Justin Fashanu declarou ser gay depois de ler a notícia de que um jovem de 17 anos tinha cometido suicídio por não se aceitar homossexual. Fashanu achou que deveria tentar ajudar outros jovens como ele e deu uma entrevista ao The Sun dizendo ser gay.

Era 1990 e ele foi insultado, vaiado, excluído. Oito anos depois dessa entrevista, Fashanu se matou.

Hoje, Joshua resgata Fashanu e tantos outros jovens boleiros que, oprimidos por uma estrutura covarde, já desistiram do jogo ou da vida. Saber que, ao contrário do que aconteceu com Fashanu, Joshua foi exaltado por uma elite futebolística que tem larga influência no esporte é redentor.

É preciso muita coragem para romper pela vida encarando ser quem somos num mundo que, todos os dias, nos diz que não deveríamos, que não podemos, que não somos bem-vindos. Um futebol livre de machismos vai ser um futebol ainda maior, mais leve, mais artístico, melhor jogado, melhor vivido.

O machismo, pai da homofobia, que todos os dias destrói a vida de tantas mulheres também destrói a dos homens, mantendo-os presos em uma jaula dentro da qual precisam ser de uma certa maneira, agir de certo modo, não se mostrar vulnerável, não chorar, não se sensibilizar, não se afetar, não se deixar atravessar. Homens sexualmente bem resolvidos vivem suas vidas sem olhar para os lados achando problema em gestos de amor que não conseguem entender.

"Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou", escreveu a antropóloga Margaret Mead. Que assim seja.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL