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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Para o torcedor e para a torcedora do Cruzeiro

Torcida do Cruzeiro no Mineirão - Pedro Vale/AGIF
Torcida do Cruzeiro no Mineirão Imagem: Pedro Vale/AGIF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

25/10/2021 16h55

Tem épocas em que gostar de futebol é puro sofrimento. Não apenas porque nosso time está afundado em fracassos, mas - o pior dos cenários - nosso maior rival está surfando a onda da glória. Nessa hora a primeira reação é dizer "vou deixar futebol pra lá. Não tenho estrutura, desisto". Nada mais natural. Todos nós que gostamos desse jogo de um jeito quase doentio passamos por situações e frustrações como essas.

Eu me lembro muito bem de 2007, quando o Corinthians caiu e, tragédia completa, o São Paulo foi campeão brasileiro pela quinta vez. É um tipo de dor que não tem nem ambiente interno que possa acolher. Ela passeia pela alma dilacerando cada pedacinho do que somos. São fases tenebrosas, sombrias, solitárias.

Uma mistura de vergonha com raiva, de amargura com revolta toma conta da gente. E a cada imagem do rival celebrando a vida adoidado a gente quer se afundar um pouco mais.

É horrível, mas é parte da vida e do jogo. Infelizmente a gente não pode existir nesse planeta sem saber que o maravilhoso e o tenebroso são dois lados de uma mesma lua. A vida é ao mesmo tempo espetacular e horripilante; deslumbrante e apavorante. Um dia estamos no topo do mundo (salve 2003); logo ali estamos no inferno. Saber que o jogo vira dá um ânimo, mas nem sempre a gente consegue se conectar a essa certeza, especialmente quando não podemos enxergar a saída.

É nessa hora que entra a tal da fé, e quem gosta desse esporte tem esse sentimento bastante fincado no caráter. Acreditar, mesmo quando tudo em volta diz o contrário.

Claro que depende do trabalho de uma diretoria séria e comprometida com a jornada heroica que vai resgatar a moral do time. Lutar para que as decisões mais importantes da vida de um clube passem também pelas únicas pessoas que realmente amam essas cores: seus torcedores e suas torcedoras. É o começo da volta por cima.

Nessa hora, surge um tipo de união e de orgulho que nem as maiores conquistas são capazes de mobilizar. É o que está acontecendo agora com o Vasco na série B. A torcida chegou junto, o time parece estar conectado em vibração, e, quem sabe, consiga uma arrancada histórica que o colocaria de volta à divisão principal?

A história do Fortaleza deveria servir de inspiração. Um time que caiu para a série C e que, desde então, sacudiu a poeira e, de forma organizada e comovente, deu a volta por cima.

Recebi outro dia uma carta da diretoria do clube cearense que é das coisas mais bonitas que já ganhei. O Fortaleza não se envergonha de sua história de fracassos, muito pelo contrário. É um clube que sabe que nossas jornadas são feitas de conquistas e de tropeços e que são as derrotas, quando olhadas de frente, que nos tornam maiores e melhores. Ganhar é uma maravilha, mas perder é fundamental. Voltar ao topo sem jamais deixar de honrar os dias ruins porque, de um jeito bastante dolorido, eles ajudaram a engrandecer nosso caráter.

E ter a certeza de que, cedo ou tarde, todos nós cantaremos, na privacidades de nossas salas, exatamente o que canta a diva Elza Soares: ali onde eu chorei qualquer um chorava; dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Se o futebol ensina apenas uma coisa, é exatamente isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL