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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Mais do que de um treinador, o Corinthians precisa de uma identidade

Torcida do Corinthians lota a Arena para jogo contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro - Alan Morici/AGIF
Torcida do Corinthians lota a Arena para jogo contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro Imagem: Alan Morici/AGIF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

22/10/2021 15h29

O que amamos quando amamos um time? Eu argumentaria que não é exatamente a camisa, nem o elenco, nem os títulos, nem os ídolos. O que a gente ama são os atributos e predicados associados a esse time, e todos os times têm os seus.

Os do Corinthians são a ligação com a classe trabalhadora, a coragem de ter se associado à luta democrática durante a ditadura, a loucura de ter uma torcida que aumentou significativamente durante três décadas sem título, a tresloucada paixão daqueles que cruzaram o mundo para invadir o Japão, num dos maiores deslocamentos humanos em tempos de paz da história, as jornadas heroicas ligadas à ocupação do Maracanã em 1976, a capacidade de se agigantar em momentos dramáticos, possuir uma torcida capaz de cantar e dançar diante de algumas derrotas e eliminações, a entrega durante todo o período de jogo, a raça, a vibração, a luta. É isso o que amamos, e é a essas qualidades que somos fieis.

Como um time com essas características deve existir dentro de campo? Que tipo de tática deve se associar a ele? Que estratégias? Quais formações? Que filosofia de jogo faria justiça a essa identidade? A partir dessas respostas, um elenco poderia ser montado e um treinador escolhido. Assim, teríamos um conceito futebolístico que não poderia ser abalado nem com a mais dolorida das derrotas. E, com essa cartilha, alguns títulos seriam ganhos, mas nem todos porque a vida e o futebol também são feitos de derrotas.

Quando Sylvinho chegou, o time que era candidato ao rebaixamento. Ele conseguiu formar uma equipe que hoje briga pela Libertadores. Existe beleza em seu trabalho e na forma como ele não esconde o amor pelo clube. Mas não há tempo para esperar por aquilo que não sabemos o que é e cuja única resposta possível teria que ser "títulos". É só por isso que existimos? Para vencer? Ou será que talvez existam coisas mais importantes do que ganhar, ganhar e ganhar?

O Corinthians poderia seguir com Sylvinho se houvesse uma filosofia de jogo que fosse também uma cartilha de valores sobre como existir dentro de um campo e, com isso, um projeto que serviria de base para a formação de uma identidade futebolística. Há notícias de que não seguirá e de que Mano voltará.

Mano tem uma ligação afetiva com o time. Tirou o Corinthians da série B numa campanha histórica. É um grande treinador, sem dúvida. Mas seria muito melhor se um novo treinador chegasse para se encaixar numa certa verdade filosófica da qual um time como o Corinthians não deveria tentar escapar do que, outra vez, mudar tudo, começar do zero, construir um time com o único objetivo de vencer, ganhar, conquistar.

Termino com uma pensamento do qual gosto muito e que adapto a partir das ideias de Allan Watts: o jogo é uma dança, e quando você dança você não está tentando chegar a lugar algum, nem está em busca de significado. O sentido e o significado da dança é a dança.

A partir da coragem de se manter fiel à nossa verdade, certamente grandes emoções e conquistas viriam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL