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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Por que a favela incomoda tanto?

Antony comemora gol do Ajax sobre o Borussia Dortmund na Champions League - Claus Fisker / AFP
Antony comemora gol do Ajax sobre o Borussia Dortmund na Champions League Imagem: Claus Fisker / AFP
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/10/2021 14h19

"Por que a imagem da favela reverberando pelo Twitter a partir da Europa incomoda tanto e a existência da favela em si não?", questiona a antropóloga Paola Lins de Oliveira sobre o post feito pelo Ajax a respeito do brasileiro Antony.

Ela tem razão. Quando o Ajax posta uma imagem associando Antony à favela e a grita começa nas redes sociais, precisamos parar e nos perguntar quem exatamente está berrando, e pelo que se berra. Se a gritaria visa desassociar Antony da favela chamando a atenção para as maravilhas do CT do clube onde ele se formou talvez exista aí alguma coisa errada.

Claro que as favelas brasileiras são um dos mais marcantes registros de como não houve reparo ao horror dos quase 400 anos de escravidão, e aqui cabe passear um pouco por nossa história.

As favelas foram formadas quando a população liberta e abandonada a sua recém-declarada "liberdade", sem que houvesse um planejamento sobre como inserir dignamente os negros e as negras na sociedade, passaram a ser um residual da assinatura da Lei Áurea. "Já os libertamos, agora não nos venham querer que encontremos o que fazer com eles" era o recado. Excluídos por leis que mesmo depois da abolição os mantinham na marginalidade, reuniam-se em cortiços e, depois, no que ficou conhecido como favelas. Recorro às palavras de João Pedro Claret, em texto escrito para o portal Voz das Comunidades:

"A abolição da escravidão em 1888, a vinda de imigrantes italianos e japoneses logo após esta data e o crescimento da indústria em São Paulo e Rio, principalmente durante a primeira e a segunda guerra mundial, foram fatores que contribuíram para a origem e crescimento das favelas no Brasil. Tudo começa quando a Inglaterra pressiona o Brasil para que dê fim à escravidão, visto que a mão de obra brasileira assalariada significaria maior exportação de produtos ingleses para o Brasil, o que traria lucro à Inglaterra. Contudo, o fim da escravidão coincide com uma onda imigratória de - principalmente - italianos e japoneses para São Paulo, e portugueses para o Rio, sem contar que começavam a aparecer os primeiros indícios de indústria. Logo, os latifundiários aproveitaram a mão de obra estrangeira especializada na lavoura e, ao invés, de empregarem os ex-escravos, agora libertos, empregaram os italianos e os japoneses. Este fenômeno contribuiu ainda mais para a marginalização do negro na sociedade, e com o desenvolvimento da indústria no Brasil, São Paulo e Rio tiveram crescimento demográfico acelerado. Ao chegarem nessas capitais, os ex-escravos se depararam com as fábricas, e como nunca haviam tido a experiências de trabalho que os italianos e japoneses tiveram em seus países industrializados, foram substituídos nas fábricas também. Ou seja, o negro não teve lugar tanto no campo quanto na cidade, e então foi no morro onde se instalou? E nossa dívida histórica aumentou".

Passados mais de 100 anos da abolição, pouca coisa mudou no que diz respeito à exclusão, ao descaso, à marginalidade. Favelas não deveriam existir, mas elas existem e nelas existe vida, existe amor, existe criatividade, existe arte, existe todo tipo de manifestação humana, das melhores às piores, assim como em qualquer condomínio, casa ou comunidade.

Favelas não deveriam existir, claro. A miséria não é aceitável nem negociável. Romantizar a pobreza não faz justiça a quem dela vem e não aponta caminhos possíveis, mas aqui precisamos parar e refletir. "O que não deveria existir é a favela como sinônimo de precariedade", pondera Lins de Oliveira. "Mas as relações de sociabilidade construídas na favela são motivo de orgulho para quem mora nela. O que precisamos entender é quem exatamente se sentiu ofendido pela postagem do Ajax: quem associa favela a uma coisa vergonhosa ou quem nela mora? Fazer essa diferenciação é fundamental".

De qualquer forma, Lins de Oliveira acredita que, feita a ponderação, pode-se dizer que o Ajax foi leviano "ao transformar a memória afetiva de uma pessoa em identidade genérica de favelado". Eis aí, me parece agora evidente, o erro do clube europeu.

Mas o que exatamente incomoda quando alguém se diz incomodado com a imagem de uma favela? A imagem da favela em si ou a precariedade e a injustiça social que fizeram ela nascer? Depois de conversar com Lins de Oliveira, fiquei com a impressão de que essa é a reflexão mais necessária diante da postagem do Ajax.

Há alegria nas favelas entre outras coisas porque, como ensina o professor Luiz Antonio Simas, a festa é um ato de resistência política. Mas nosso pensamento, tão condicionado a exotizar os que alcançam destaque "mesmo nascendo na favela", não deveria ir por esses caminhos e sim pelos caminhos do "imagina do que seríamos capazes se pudéssemos oferecer uma infância digna a todos os brasileiros periféricos, que vivem dentro e fora da favela.

Quantos artistas mais existiriam? Quantos Mano Browns? Quantos Romários? Quantos Adrianos? Quantas Linns da Quebrada? Quantos advogados preocupados com as causas sociais, médicos que não negariam anestesiar mulheres negras nos partos, urbanistas interessados em construir cidades para todos os tipos de corpos e de vidas. Esse incômodo deveria ser o maior de todos os incômodos.

O que Antony vê jogando no campo do clube ao levantar a cabeça e olhar para as pessoas no estádio é exatamente o que veem seus companheiros de time. O que Antony sente é diferente, assim como é diferente o que sentimos cada um de nós diante de uma mesma situação porque nossas bases de formação são distintas e é a partir delas que damos significado às coisas.

Mas, sim, há desconforto com a postagem do Ajax, ainda que não necessariamente o desconforto que deu origem à grita. Para mim, o post pode ser perverso porque o recado implícito é: "se você se esforçar pode chegar lá". As pessoas mais esforçadas que eu conheço jamais "chegarão lá", e as mais preguiçosas já nasceram lá.

Por tudo isso, a pergunta que fica é: quem se incomodou com a postagem do Ajax?

Se fomos apenas nós, uma classe média que pouco ou nada sabe sobre a vida e as relações que existem numa favela e que se apressa em tirar simbolicamente Antony da favela e associá-lo à sofisticação de um CT com tecnologia de ponta, temos aí um preconceito sim, e ele não é do Ajax, mas muito nosso - e com ele teremos que lidar.

Se o incômodo veio de moradores das favelas, aí teremos uma problematização que vale ser absorvida e sobre a qual devemos pensar.

É preciso entender que poucas coisas que nós, brancos, fazemos e dizemos escapam do racismo porque o racismo é uma das maiores forças que nos construiu, que nos organizou, que nos formou. Ele está ligado, ainda que de forma sutil, ao que causa nossa ação e ao que causa nosso julgamento. Nem todo branco é racista, mas todos nós nos beneficiamos dessa estrutura de alguma forma e é por isso que é bastante improvável que, mesmo sem ter consciência disso, acabemos por reproduzi-lo. É fundamental andar pela vida atento e forte, como diz a música.

Tudo isso eu disse para chegar aqui: a postagem é oportunista ao usar os afetos de Antony para ganhar biscoito. Pegar a primeira imagem que o Google oferece é, para dizer o mínimo, leviano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL