PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Por que nossos treinadores não estão entre os melhores do mundo?

Técnico Telê Santana - David Cannon/Getty Images
Técnico Telê Santana Imagem: David Cannon/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

19/10/2021 19h15

Diziam que Ênio Andrade, o treinador gaúcho que conquistou três títulos nacionais e chegou a ser considerado por muitos o melhor do Brasil nos anos 80, quando era confrontado com a pergunta: "como o seu time vai jogar hoje?" respondia: "Com a bola, vamos atacar. Sem a bola, vamos defender". Jogando assim, ele levantou muitos troféus. Mas é claro que um time não apenas defende sem a bola e ataca quando de posse dela. O futebol envolve mais do que essa simplicidade e talvez Ênio dissesse isso apenas por farra.

Joel Santana, que hoje talvez seja mais lembrado pelas campanhas publicitárias nas quais era mostrado como um homem que tenta falar inglês num estilo muito próprio, era o rei dos estaduais na década de 90. Venceu títulos no Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo e também com Bahia e Vitória. Foi, por alguns anos, o cara.

Minha lista de preferências pessoais tem Telê Santana em destaque por causa das seleções brasileiras de 82 e 86, tem Tite por causa da Libertadores e do Mundial do Corinthians, tem João Saldanha por ter sido alguém que entendia o futebol como maior do que as quatro linhas.

Quando os pontos corridos foram re-instituídos, Muricy e Luxemburgo viraram os reis do novo formato. Luxa montou um timaço no Cruzeiro de 2003 e 2004 e é ainda hoje o treinador com mais vitórias em jogos do campeonato Brasileiro. Luxa chegou a ir treinar o Real Madrid de tão renomado que era. Temos também Felipão e seus times vencedores e, mais recentemente, Cuca.

Mas faz um tempo que nossos treinadores, mesmo os vitoriosos, não se destacam pela inovação, pela criatividade, pela revolução. E eu me pergunto até se já chegamos a ter esse profissional entre nós. Telê, obviamente, construiu uma seleção que jogava por música - a de 82 - e merece todos os méritos pelo que nos fez sentir vendo aquele timaço jogar. Mas Telê não exatamente revolucionou o futebol em suas dimensões táticas, físicas e estratégicas.

O holandês Rinus Michels, por outro lado, entrou para a história como o homem que olhou para um campo e pensou diferente. Foi o criador do "futebol total" - ou o "carrossel holandês": um jogo de movimentação rápida, sem posições fixas, de constante movimento e troca de bola. Depois dele, Pep Guardiola no Barcelona fez coisa parecida, dessa vez com especial foco no preparo físico que permitia com que seu time mantivesse pressão total pela posse de bola no campo inteiro durante 90 minutos.

Mas e os nossos treinadores? Por que nunca fomos capazes de pensar o jogo de formas alternativas? Por que tanto acanhamento em desbloquear nossas imaginações, em inovar, em transgredir? O drible, esse fundamento abençoado, nasceu nessas terras. O futebol alegre e cheio de cintura, o futebol que ocupa espaços improváveis, que usa o corpo para capoeirar o jogo. Nossas grandes inovações chegaram via jogadores e não via treinadores. Chegaram pela enorme inteligência contida em nossos corpos, chegaram pela intuição que todos os dias tentamos matar, desvalorizar, diminuir. Do que seríamos capazes se pudéssemos imaginar novas estratégias, táticas, técnicas de existirmos dentro de um campo?

Fernando Diniz, quando chegou ao São Paulo, me deu a impressão de que poderia ser esse cara. Montou um time que jogava por música, que tratava a bola e o jogo com o respeito devido. Mas Diniz se perdeu nele mesmo e, até aqui, ainda não se reencontrou. No mais, dependemos de treinadores gringos - Jesus, Vojvoda - para achar coisas novas. Barbieri, jovem e fazendo bom trabalho no Bragantino, não se destaca exatamente por deixar uma assinatura, mas por executar um trabalho sério com base nos princípios táticos mais conservadores.

Somos uma nação formadora de jovens craques. Enquanto escrevo esse texto já nasceu meia dúzia num num canto desse país. Qualquer time da série A ou B está repleto de bons jogadores. Deveria ser possível fazer uma equipe vibrante com qualquer um desses elencos. O Fortaleza não é exatamente um time cheio de foras-de-série, mas foi montado por Vojvoda de modo a ser altamente competitivo e agradável de se ver jogar. O Corinthians tem hoje um elenco notável; deveria estar jogando de forma sublime, e está longe disso.

Enquanto seguirmos apenas repetindo o que outros já fizeram, enxergando o jogo com olhos conservadores e criativamente bloqueados, teremos que nos contentar com isso: aqui e ali aparecerá um time vencedor, que cruzará muitas bolas na área, fará muitos lançamentos, driblará em noites de lua cheia e executará em campo a velha e boa formação estabelecida por seu treinador: 4-3-3; 3-5-2; 5-3-2; 4-4-2... Números que já não são capazes de explicar o jogo e o que mais podemos fazer com ele. E ao fim de cada partida tudo acaba meio como Ênio Andrade definiu: com a bola, atacamos; sem a bola, defendemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL