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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: A vergonhosa tentativa de moralizar o futebol

Cristiano Ronaldo exibiu um corpo "trincado" na comemoração do gol da vitória do United contra o Villarreal - REUTERS
Cristiano Ronaldo exibiu um corpo "trincado" na comemoração do gol da vitória do United contra o Villarreal Imagem: REUTERS
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

17/10/2021 14h22

O lateral Yago Pikachu, do Fortaleza, levou um cartão amarelo no jogo contra a Chape por mandar beijinhos para a torcida rival. Há algumas semanas, Lucas Paquetá foi punido com cartão por tentar uma carretilha, punição já sofrida por Neymar. São inúmeros os casos de jogadores punidos - com amarelo e até com o vermelho - por tirarem a camisa para celebrar um gol. O que esse tipo de prática diz a respeito do futebol? Na minha opinião, a inserção do drible, do peito nu e da comunicação com a torcida rival (mandando beijo, pedindo para silenciar) como proibidas são tentativas de mostrar que o jogo está sendo moralizado, e é aí que mora o perigo.

É preciso ter muito cuidado com esses discursos moralizantes.

Colocar o drible como objeto de afronta moral é tirar esse fundamento do lugar que ele deveria ocupar - e que na minha opinião deveria ser o das coisas divinas. O drible nasceu no Brasil como forma de transformar o futebol que chegou aqui a partir da Inglaterra. Um jogo de passes e lançamentos que, com a corporalidade brasileira, foi incrementado e elevado a um lugar maior. Puni-lo é, de alguma forma, punir o futebol e, ao mesmo tempo, incentivar essa caretice que estamos vendo em campo.

Punir o jogador que pede para a torcida adversária calar a boca ou que manda beijinhos para ela é punir a livre expressão. Até mostrar o dedo do meio deveria ser liberado - gostemos ou não. Podemos criticar, dizer que não faríamos, que é de mau gosto etc, mas punir é uma tentativa ilusória de moralizar o que não precisa ser moralizado.

O peito nu é ainda mais problemático porque o que se pune nesse caso é aquilo que se considera desrespeito com o patrocinador (ou os patrocinadores), que no momento maior, o do gol, são retirados de cena. E é claro que qualquer um que viva nessa sociedade orientada pela lógica do Capital, organizada pela força dos interesses financeiros, entende por que o jogador não deveria, aos olhos do clube, tirar a camisa. Mas uma coisa é orientá-lo a não tirar, e outra completamente diferente é usar o cartão para puni-lo na tentativa de dizer, "isso que você fez é imoral".

Se quiserem moralizar o futebol eu sugeriria olhar para outros lados. Impedir que empresas que devem ao FGTS patrocinem times seria um começo. Ou proibir empresas já listadas por uso análogo à escravidão, ou empresas que explorem o planeta de forma predatória... a lista é grande.

Poderíamos também impedir a escalação de jogadores que não pagam seus impostos, ou que praticaram qualquer tipo de violência contra mulheres. Mais? Quem sabe exigir representatividade para o corpo diretor da CBF, tendo que haver nele um total de 50% de mulheres, cis e trans, 50% de pessoas negras, alguma cota para populações originárias, PCDs... já pensou que maluco se a associação que regula o futebol tivesse a cara da população brasileira?

Acho que se a intenção é moralizar o jogo esses seriam caminhos menos hipócritas do que punir o peito nu, o beijinho para a torcida rival e o abençoado drible.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL