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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Declaração de Tandara é transfóbica e misógina

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

15/10/2021 13h07

Tandara, uma de nossas atletas mais fenomenais, volta a dizer que não acha justo que mulheres trans participem de esportes femininos. É preciso olhar para essa declaração com atenção. O tema é complexo, mas, com um pouco de dedicação, de pesquisa e de cabeça aberta, podemos chegar a algumas conclusões - e elas nos levarão a enxergar as camadas de transfobia e de misoginia na colocação de Tandara.

É transfobia porque atletas trans são pessoas que se identificam como mulheres e que passam por um processo de regulação hormonal ajustando a taxa de testosterona em seus organismos para que elas fiquem num valor máximo pré-estabelecido. Não é um processo fácil, nem curto. É uma travessia que leva a pessoa a ser quem ela realmente é, a deixar para trás um corpo com o qual ela não se identificava e dentro do qual ela se sentia enjaulada. Achar que alguém encare essa transição "para se dar bem" em um esporte é o mesmo que achar que uma mulher teria um filho apenas para "receber o Bolsa Família". É ignorância, desinformação e arrogância.

Ao se opor à participação de mulheres trans no esporte, o que Tandara, ou qualquer outra pessoa que com ela concorda, está dizendo é que mulheres trans não são mulheres, ou que são "mais ou menos" mulheres: podem ser nossas amigas, mas competir profissionalmente não dá.

O ajuste da taxa hormonal coloca atletas trans em igualdade de performance a atletas cis, tanto é assim que o boxeador americano Patricio Manuel, um homem trans, tem um histórico de vitórias contra homens cis.

Mas por que não se fala de homens trans no esporte com a mesma fúria que se fala de mulheres trans?

Porque nossa cultura é misógina. Acredita-se que existe uma forma correta de ser mulher e que sobre o corpo de mulheres todos podem opinar e legislar. O que incomoda é o feminino, não o masculino.

Para a cientista hormonal canadense Joanna Harper, "uma vez que os atletas trans se tornam hormonalmente semelhantes aos competidores cisgênero, torna-se razoável permitir que eles compitam de acordo com o gênero". Harper, que assessora o COI nas questões de atletas transexuais, é uma mulher trans, esportista e também usa seu corpo e sua transição para avaliar as transformações.

Questões de gênero podem ser confusas, é natural. Estamos sendo convidados a olhar para o regime sexual estabelecido com novos olhos, convidados a alargar nossa percepção do que é certo, errado, fechado, consolidado. Convidados a entender como somos todos, todas e todes prisioneiros de um regime sexual que nos separa, limita, dilacera. Paul Preciado, filósofo espanhol e homem trans, é quem melhor tem falado sobre isso. É dele o trecho abaixo:

"Esta será a Guerra dos Mil Anos - a mais longa, sabendo-se que afeta políticas e processos reprodutivos através dos quais um corpo humano constitui-se como sujeito soberano. De fato, será a mais importante das guerras, porque o que está em jogo não é nem o território nem a cidade, mas o corpo, o prazer e a vida [...] O que caracteriza a posição dos homens em nossas sociedades tecnopatriarcais e heterocêntricas é que a soberania masculina se define pelo uso legítimo de técnicas de violência (contra mulheres, contra crianças, contra homens não-brancos, contra animais, contra o planeta como um todo). Poderíamos dizer que a masculinidade é para a sociedade o que o estado é para a nação: o titular e o legítimo usuário da violência. Essa violência se expressa socialmente sob a forma de dominação, economicamente sob a forma de privilégio, sexualmente sob a forma de agressão e estupro. A soberania das mulheres, ao contrário, está ligada à sua capacidade de gerar. As mulheres são subjugadas sexual e socialmente. Somente as mães são soberanas. No âmbito desse regime, a masculinidade se define necropoliticamente (pelo direito dos homens de dar a morte), ao passo que a feminilidade se define biopoliticamente (pela obrigação das mulheres de dar a vida). Pode-se dizer que a heterossexualidade necropolítica é algo como a utopia da erotização do acoplamento entre Robocop e Alien, pensando que, com um pouco de sorte, um dos dois se satisfaça"

Preciado tem sido uma voz incansável na luta por um mundo menos cruel e uma das maiores crueldades que existem é a de não reconhecer a humanidade no outro. Ao declaramos que mulheres trans não são mulheres em sua integralidade o que estamos fazendo é isso: cometendo uma perversidade. Termino com mais um trecho do filósofo espanhol:

"O que é mais urgente não é defender o que nós somos (homens ou mulheres), mas rejeitá-lo, desidentificarmo-nos da coerção política que nos obriga a desejar o padrão e a reproduzi-lo. Nossa práxis política é desobedecer normas de gênero e sexualidade".

Mas, claro, nem todos nós somos assim tão destemidos a ponto de observar com atenção e honestidade nossos desejos e de nos perguntar o que, afinal, incomoda tanto numa questão como essa que envolve diretamente a atleta Tiffany Abreu, uma mulher trans. E aí evoco Guimarães: o que a vida quer da gente é coragem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL