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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Romário é mais um jogador a endossar o fascismo bolsonarista

Romário detonou a CBF após prorrogação do afastamento de Caboclo  - Waldemir Barreto/Waldemir Barreto/Agência Senado
Romário detonou a CBF após prorrogação do afastamento de Caboclo Imagem: Waldemir Barreto/Waldemir Barreto/Agência Senado
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

11/10/2021 21h23

São 600 mil mortos quando poderiam ter sido menos da metade. Evidências múltiplas de que Bolsonaro e sua administração trabalharam para disseminar o contágio do vírus e de que estão associados a um genocídio. Mas nem precisamos tocar nesse assunto se não quiserem.

Estamos falando de um homem que comparou negro a gado, que disse que mulher é fraquejada, que torturador é ídolo, que o estupro é recurso legítimo ("só não te estupro porque você não merece" foram as palavras gravadas e dirigidas a uma deputada). Um homem que prefere ter um filho morto a um filho gay, que afundou o Brasil em fome, em desespero e em mais violência.

Não há termos de paralelos entre Bolsonaro e Lula por mais que se desgoste do segundo. Comparado ao Brasil de Bolsonaro e de Guedes, o Brasil de Lula, a despeito de qualquer deslize, era um paraíso: havia empregos, havia estudo e universidade, havia investimento em ciência, havia respeito ao SUS e aos ritos democráticos, havia reconhecimento internacional. Querer traçar qualquer tipo de semelhança entre um e outro é alucinação, na melhor das hipóteses, ou desonestidade, na pior.

Não há como seguir fingindo que uma administração fascista, que usa slogan nazista (Alemanha acima de tudo era o de Hitler) e que se vale de métodos de extermínio para fazer uma gestão macabra de vida e de morte é alguma coisa trivial, admissível, tolerável. Ao sugerir que Bolsonaro é aceitável Romário nos estapeia a todos. "Bolsonaro não tem medo de se posicionar", diz o artilheiro confundido a coisa toda.

Não se trata de medo, mas de decência, de dignidade, de ética. O que Romário tenta aproximar da coragem está mais perto da covardia. Não é preciso ter coragem para oprimir e excluir; basta poder. Coragem é necessária para amar, incluir, compartilhar. Bolsonaro é um dos filhos mais sórdidos que essa nação já produziu. É a covardia em forma de homem, é a violência em forma de verborragia.

Fascismo não é apenas um fenômeno localizado no tempo histórico. Fascismo é um modo de gestão de vida e de pulsão de morte que destroi tudo ao redor, mas que se sustenta quando há interesses econômicos, quando um pequeno grupo de empresários poderosos pode lucrar muito com tanta destruição.

Fascismo é o que estamos enfrentando hoje, aqui e agora, com Bolsonaro, Guedes e todo o apetite financeiro que segue abençoando a dupla. É preciso entender ao que se associa quando naturaliza-se esse estado de coisas, quando se escolhe banalizar uma administração que faz uso de técnicas de extermínio. Ao declarar que Bolsonaro é aceitável e até preferível a Lula, Romário faz um pacto com a devastação moral, ética, espiritual, econômica e social que estamos enfrentando. Pelo que? Em nome do que? Os alemães deram um título a quem apoiou Hitler por motivos econômicos para afastar a ameaça do socialismo de vista: foram chamados de nazistas.

Bolsonaro é um equívoco, uma aberração, um dejeto. Aproximar Bolsonaro de qualquer tipo de naturalização, tratá-lo como se ele fosse coisa corriqueira no jogo democrático é dar as mãos ao absurdo, ao grotesco, ao fascismo. É ofender a família dos 600 mil mortos. É cuspir na cara do desempregado, do faminto, do sem-teto.

O tempo passa e o jogo vira. Já é aceitável dizer a Romário o que ele disse a Pelé em 2006: Romário calado é um poeta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL