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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: De onde vem o "olé" no futebol?

Garrincha pelo Corinthians - Arquivo/Corinthians
Garrincha pelo Corinthians Imagem: Arquivo/Corinthians
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

08/10/2021 17h54

Não vi mais do que 15 minutos do jogo do Brasil na noite dessa quinta-feira porque bastou pouco tempo para eu perceber que ganharia mais fazendo qualquer outra coisa com minha noite. Desliguei o jogo e fui ver Ted Lasso. Mas os 15 minutos que vi tiveram gritos de "olé" da torcida venezuelana. Eu ri, é verdade. E em seguida pensei em um Ted Talk que vi com a escritora Elizabeth Gilbert em que ela explicava sobre o "olé" e o que ele representa.

Na antiguidade, quando quase tudo o que nossos ancestrais faziam à noite era acender um fogo em local aberto e em volta dele cantar e dançar, havia ocasiões em que um dos presentes dançava de forma a parecer estar em conexão com alguma coisa maior. A impressão de que ele ou ela estava experimentando uma manifestação divina em seu corpo dançante fazia com que os demais começassem a gritar "Alá! Alá! Alá", como que reconhecendo Deus no dançarino e, portanto, entre eles. É uma espécie de transe motivado por sons coletivo e ele existe até hoje.

Esses povos invadiram, a partir do norte-africano, a Europa entrando pela Península Ibérica - e o costume foi com eles. Durante as touradas os gritos de "Alá" passaram a ser "olé" sempre que havia no corpo do toureiro alguma indicação de uma manifestação divina. E assim o grito chegou aos estádios de futebol: nasceu como o reconhecimento de que ali, onde o jogador parece estar possuído por alguma coisa maior e inexplicável, está Deus.

Quem gosta de futebol sabe exatamente o que é se sentir parte de alguma coisa sagrada dentro de um estádio. Pode ser um lance, um gol improvável, uma triangulação, uma tabela ou até mesmo uma derrota. Eu estava no Pacaembu em 2013 quando o Corinthians foi eliminado pelo Boca nas oitavas da Libertadores, num jogo cheio de erros inexplicáveis de arbitragem, e testemunhei a torcida cantando apaixonada e ensandecida depois da eliminação. Havia naquele canto catártico e cheio de tristeza uma beleza divina. Se o "olé" fosse aplicado em toda a sua totalidade ele certamente caberia ali.

Quem viu Pelé ou Garrincha jogando talvez tenha tido essa exata sensação, essa explosão de "olé" a cada lance, a cada partida.

Pena que hoje já não haja espaço para muitos "olés" dada a caretice e o pragmatismo do jogo. Mas ontem eu me diverti com a torcida venezuelana gritando "olé". Foi um instante, mas existe uma dimensão de eternidade em cada instante como esse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL