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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: O vizinho de Abel

Abel Ferreira explica opção por Breno Lopes na final da Libertadores - Reprodução/Instagram
Abel Ferreira explica opção por Breno Lopes na final da Libertadores Imagem: Reprodução/Instagram
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

29/09/2021 12h27

Quando o juiz apitou o fim de jogo o show de Abel Ferreira começou. Alucinado, olhou para uma das câmeras e ficou na iminência de dizer algumas verdades, mas foi contido. Na coletiva, explicou: "No final, em que apontei para a câmera, não foi para nenhum jogador ou treinador do Atlético. Eu tenho um vizinho no meu prédio que é um chato, foi diretamente para o meu vizinho, para ele estar calado porque quem manda na minha casa, o que sabe o que acontece na minha casa sou eu e não ele".

É sempre bom quando a gente enxerga nesses ídolos - e Abel é ídolo da torcida palmeirense - alguma miséria tão comum ao cotidiano de todas e todos nós, simples mortais. Todo mundo tem um vizinho que é um chato. Mais recentemente, passamos a constatar que todo mundo tem um vizinho que é um fascista, desses que ainda é capaz de ver alguma coerência em um governo que atua em muitas frentes para nos matar de fome, de bala ou de sufocamento. As pesquisas indicam que um em cada quatro brasileiros pertence a esse grupo.

Esses vizinhos estão por aí, andando sobre nossas cabeças, ligando seus aparelhos de som avolumados noite adentro, passeando sem máscara pelo condomínio, dando aquele tradicional espetáculo de falta de empatia e solidariedade característico dos mimados e autoritários.

Não sabemos o que fez ou disse o vizinho de Abel, mas sabemos que o que quer que seja que ele tenha feito serviu para motivar o português apaixonado.

Tendemos a colocar manifestações ardentes de paixão na categoria do descontrole, e se Abel fosse mulher ele certamente já teria sido chamado de louco, descompensado, destemperado, desvairado, incapaz de se comportar de forma racional, coerente, decente. Mas homens brancos podem se comportar assim, para o bem e para o mal.

Defendo a ideia de que existe uma racionalidade na paixão e que sobre ela pouco se fala.

Abel é um vitorioso. Podemos criticar a beleza do futebol que o Palmeiras pratica, mas temos que fazer aquele "shhhhh" que ele recomendou ao vizinho para a tal da eficiência. O time de Abel domina com soberania os grandes espaços do campo. A diretoria deu a ele um elenco de dezenas de jogadores multi-talentosos e ele tem sabido aproveitar cada um deles para construir seu jogo que prima pelo sistema defensivo, verdade, mas que sabe ser rápido e certeiro para contra-atacar.

Seria Abel um treinador tão competente se não fosse esse maluco destemperado e apaixonado? Difícil dizer, mas eu arrisco um "não". Não se joga fora esse tanto de entrega e de destempero em nome de uma racionalidade que, muitas vezes, é apenas performance e falta de conexão. Se a paixão é usada em nome de uma causa digna, se ela não faz mal a outra pessoa, a outros seres ou ao planeta, então é preciso acolhê-la e celebrá-la.

Deve ser um dia difícil para o vizinho de Abel Ferreira, mas a vida também é feita desses sentimentos de derrota e de fraqueza que, com atenção e intenção, acabamos superando. E o Flamengo vem aí - para dar ao vizinho do treinador português uma chance de volta por cima.