PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: O campo dos sonhos do futebol feminino

Yasmin, do Corinthians, em lance da segunda partida da final do Brasileiro feminino contra o Palmeiras - JHONY INÁCIO/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO
Yasmin, do Corinthians, em lance da segunda partida da final do Brasileiro feminino contra o Palmeiras Imagem: JHONY INÁCIO/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

28/09/2021 11h07

"Campo dos Sonhos" é um filme de Kevin Costner lançado em 1989. O filme conta a história de um jovem fazendeiro (Ray, interpretado por Costner) que um dia escuta uma voz sussurrando a frase: "se você construir, ele virá". O "ele" em questão é um icônico jogador de baseball morto há anos e de quem Ray era fã. Ray interpreta o recado e chega à conclusão que as palavras pedem que ele construa um campo de baseball. Para fazer isso ele terá que derrubar parte do milharal, o que, racionalmente, parece incoerente - afinal, é apenas uma voz, que ninguém mais escuta, sussurrando em seu ouvido. Ele duela com seus sentimentos até que, incentivado pela mulher, decide construir o campo a despeito da loucura que a iniciativa possa sugerir.

No começo, nada de novo acontece e ficamos com a impressão que ninguém virá. As imagens de um campo vazio - qualquer campo - são sempre inundadas de poesia e beleza porque um campo nunca está vazio de verdade. Um campo, mesmo vazio, contém muitos sonhos - e sonhos nos deslocam, nos orientam, nos fazem insistir. "Se você construir, ele virá", repete a voz. Até que um dia, ele vem. E chega trazendo muitos outros jogadores. O filme é comovente e eu acho impossível não chorar com a última cena (não vou dar spoiler).

Pensei em Campo dos Sonhos quando li a notícia da audiência que a final do Brasileiro feminino de futebol foi capaz de alcançar. "Se você construir, eles virão". Virão, sem dúvida. O futebol feminino, mesmo sem dinheiro, mesmo sem incentivo, mesmo ainda encharcado de preconceito e intolerância, foi capaz de se erguer e de se provar competitivo. Hoje, com um mínimo de apoio ele bate recordes de audiência. Do que seria capaz com mais apoio, mais incentivo, mais investimento? Onde poderia chegar?

O futebol feminino é o sonho de muitas garotas pelo Brasil. Foi o meu sonho um dia e, por causa dele, muitos campos construí em minha imaginação. Campos onde mulheres jogavam livremente, onde o futebol feminino era levado a sério, onde podíamos nos encontrar com a integridade de nossos desejos. Todos e todas nós construímos nossos campos pela vida. São aqueles lugares onde a gente se permite sonhar com o que parece ser impossível. E, de fato, tudo o que hoje é bastante real um dia já foi impossível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL