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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Futebol feminino brasileiro, um edifício em construção

Jogadoras de Palmeiras e Corinthians disputam jogada durante a ida da final do Brasileirão Feminino - Jhony Inácio/Enquadrar/Estadão Conteúdo
Jogadoras de Palmeiras e Corinthians disputam jogada durante a ida da final do Brasileirão Feminino Imagem: Jhony Inácio/Enquadrar/Estadão Conteúdo
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

26/09/2021 13h20

Nesse domingo, 26 de setembro, Corinthians e Palmeiras fazem o segundo jogo da final do Brasileiro. No primeiro, um jogo truncado, defensivo, amedrontado que não deixou nada a dever para a maior parte dos jogos do futebol masculino (alguém viu com ânimo São Paulo e Atlético na noite de sábado?).Para a segunda partida da final nutro alguma esperança de mudança nas atitudes dos times.

A noção de que tudo na vida é - e está - construção ajuda a gente a entender muitas coisas. O futebol feminino, esse que por tanto tempo foi maltratado a ponto de ter sido proibido por lei durante os anos da ditadura - ainda luta para ser amplamente aceito, visto, celebrado. Mas sua entrada no imaginário coletivo não acontecerá a menos que essa popularidade seja construída. Como? Com apoio da mídia, com apoio financeiro. Se até um esporte como o curling é capaz de atrair simpatizantes durante os jogos olímpicos de inverno me parece bastante evidente que o futebol feminino, quando devidamente retratado e distribuído, cruzará de vez a fronteira do respeito e da popularidade.

Estamos, aparentemente, a caminho desse território. A final desse domingo entre Corinthians e Palmeiras reuniu o interesse de grandes grupos de mídia, e isso é ótimo. Mas, para que o futebol feminino se desvincule do lugar de apêndice do masculino, vai ser preciso um pouco mais.

Em primeiro lugar, o apoio daqueles que, hoje, acumulam fortunas e poder, como, por exemplo, o grupo Magalu, ou Magazine Luiza, a badalada corporação que tem uma mulher à frente dos negócios e que já chegou a investir no time masculino do Corinthians. Representatividade ajuda a gente nessas horas e seria muito bacana ver uma empresa como essa entrar de corpo e alma no negócio do futebol feminino brasileiro.

Outro aspecto que considero fundamental é o futebol feminino deixar de se inspirar no masculino para criar estratégias, filosofias, conceitos e táticas de jogo. Não iremos tão longe se seguirmos tendo o ambiente técnico e emocional do futebol dos rapazes como base. O jogo, pouca gente discorda, anda chato, monótono, lento, acovardado - salvo raras exceções (alô Flamengo, alô Fortaleza). Por que não desbloquear nossa imaginação? Por que não formar comissões técnicas majoritariamente femininas? Por que não pensar o jogo sob o ponto de vista das características atribuídas ao feminino: solidariedade, colaboração, sensibilidade, acolhimento, cuidado?

A regra que a CBF criou que obriga times da série A do masculino a formarem equipes femininas é boa, mas apenas até um certo ponto. A partir de uma determinada fase vai ser preciso sair da costela do masculino, buscar apoio de empresas que tenham algum compromisso com a luta feminista, organizar o jogo via métodos menos truncados, defensivos, amedrontados, criar conceitos e filosofias que possamos chamar de nossas, se reconciliar com o drible, com o futebol alegre, delirante e ofensivo que é aquele que melhor representa o que somos nas frestas e no ambiente anti-institucional desse país.

A luta do futebol feminino brasileiro é a luta de todas nós contra a misoginia e o machismo, duas forças estruturais e estruturantes da nossa sociedade. É uma luta enorme, uma guerra de milhares de anos, e que travamos, todos os dias, movidas por aquelas que vieram antes da gente e em nome das que virão.

Que a final de hoje seja um jogo aberto, corajoso, ofensivo e que, com isso, possa nos emocionar como quase nenhum time do masculino tem sido capaz de fazer. Que o futebol, essa instituição, possa começar a renascer pelos pés dessas jogadoras tão incrivelmente talentosas, criativas e inteligentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL