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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Fortaleza, meu amor

A torcida do Fortaleza -
A torcida do Fortaleza
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

16/09/2021 14h51

O escritor uruguaio Eduardo Galeano costumava dizer que o futebol é uma alegria que doi. Acho uma definição precisa. O jogo está inserido na memória de alguns de meus maiores sofrimentos e de minhas maiores felicidades na vida. O time para o qual escolhemos torcer - ou o time que nos escolhe como torcedores - sai da categoria de objeto e passa a ser sujeito. Com esse sujeito construímos uma relação profunda, dilacerante, penetrante, intensa. Eu, por exemplo, já senti saudade de ver o Corinthians em campo, e aqueles que não gostam de futebol, ou não ligam para o jogo, certamente acreditam que sentir saudade de um time é uma espécie de alucinação, de delírio, de enfermidade. Talvez seja, e nesse caso não me interessa estar sã.

Mas existem outras dimensões de afetos que o futebol movimenta e sobre as quais pouco se fala. Por exemplo: o ambiente que escondemos bem guardado em nosso peito onde vivem uma espécie de respeito silencioso pelo eterno rival e a admiração pelo craque do adversário. Difícil alcançar esse lugar, mas ele existe e pulsa. E existem ainda as emoções que pegam a gente de surpresa, e é sobre essa que quero falar.

Quem está atento ao que acontece em campo está, de alguma maneira, se deixando encantar pelo Fortaleza. O time que até outro dia estava na série C hoje está entre os quatro melhores do Brasil. Um time sem estrelas e sem mimos. Um time organizado para atacar, que ocupa os espaços do campo com velocidade, que joga lealmente, que respeita o torcedor e a audiência. Um time que tem deixado gigantes no chão e que rola a bola com alegria e humildade. Um time que sabe perfeitamente que o lugar de onde viemos e pelos quais passamos devem ser celebrados, honrados, reverenciados. Nada em nossas histórias deve ser jogado fora porque esse foi o caminho que nos trouxe até aqui. O Fortaleza não se envergonha da série C, muito pelo contrário.

Num cenário dentro do qual cair é uma humilhação e onde começamos a ver apenas três times se destacarem dos demais e formarem uma pequenina elite que ameaça se revezar no levantamento de troféus, o Fortaleza é o intruso e a resistência. É na história do tricolor cearense que podemos nos reconciliar com o sonho de ver uma espécie de resgate do futebol acontecer. O Fortaleza é a esperança de que possamos perceber que um time é mais do que um elenco estrelado. Mais do que um seleto grupo de times sudestinos endinheirados. Mais do que uma lógica altamente empresarial aplicada a todas as coisas da vida e do jogo. É a certeza de que futebol é união, entrega, intensidade, respeito, atenção, amor, paixão.

Que o Fortaleza possa continuar sua jornada heroica. Que siga com esse encantamento. Que nos presenteie a todos e a todas com o maior dos presentes: o direito de sonhar com dias em que viveremos num mundo mais inclusivo, democrático e colorido. Voa, Fortaleza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL