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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: O que o jogo quer da gente é coragem

Huck. (Foto: Pedro Souza/Atlético Mineiro) - Reprodução / Internet
Huck. (Foto: Pedro Souza/Atlético Mineiro) Imagem: Reprodução / Internet
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

15/09/2021 20h51

Começo pedindo a benção de João Guimarães Rosa por adaptar nesse título uma das memoráveis frases de seu "Grande sertão: Veredas". Isso feito, vamos lá.

O Fluminense precisava ganhar fora de casa do fortíssimo e favorito Atlético para seguir na Copa do Brasil e escolheu jogar recuado para sair no contra-ataque. Uma ideia que na teoria pode até parece razoável, mas que na prática aconteceu apenas na dimensão do "jogar recuado"; contra-ataque mesmo, não vimos. Até porque Fred, que deveria ser o cara a puxar a correria, estava ocupado ajudando o sistema de marcação - assim como estavam os dois outros atacantes (Luiz Henrique e Caio Paulista).

As duas melhores chances nasceram quando o tricolor, talvez desobedecendo uma orientação do treinador, saiu para o jogo. E o Galo, que fez um primeiro tempo muito abaixo da sua média, ainda teve duas boas chances mesmo jogando contra uma equipe toda organizada para se defender.

Aí, para o segundo tempo, Cuca coloca Diego Costa no lugar de Vargas e a partida muda de cara. O Atlético transforma o recuo do Fluminense em sufoco - o que não tinha feito no primeiro tempo - e o tricolor começa a se dar mal. Era esperado? Eu diria que sim.

A escolha por uma estratégia de marcação, defesa, recuo e combate na sua própria intermediária, mesmo precisando vencer, é, para dizer o mínimo, uma escolha apequenada para um time como o Fluminense. Ainda mais se levarmos em conta que no atual elenco existem muitos bons atacantes, todos jovens e portanto capazes de voltar para marcar. Uma coisa é um time orientado para marcar e liberado para atacar apenas em situações de segurança (como se situações de segurança existissem no futebol). Outra é um time orientado para atacar que, apesar dessa proposta, também é combativo e intenso.

Na entrevista dada por Marcão, treinador do Fluminense, antes do jogo ele já deixava claro a intenção de se defender acima de qualquer outra ideia, o que me soou absolutamente inacreditável dado que o time precisava de uma vitória simples para levar para penaltis - e de uma diferença de dois gols para passar a próxima fase.

Depois de levar o gol no começo do segundo tempo, o Fluminense resolve jogar: sai um volante, entra um jogador com alma de atacante e, enfim, nasce um jogo de arranques, emoção, intensidade, vibração. O Atlético, mais atuante do que no primeiro tempo, respondia na mesma moeda. No final, um a zero para os mandantes que passam para a próxima fase.

Não deu para o Fluminense, até porque o adversário era um dos melhores times da América hoje, mas pelo menos tivemos um segundo tempo de futebol jogado e não de futebol truncado. Teria sido diferente se o tricolor tivesse optado por sair para o jogo desde o pontapé inicial? Só as deusas sabem. Mas teria sido menos acovardado, certamente.

Uma pena esse acovardamento que, diga-se, contamina o futebol brasileiro com raras exceções. Um ano que poderia ter sido muito bom para o Fluminense se anuncia apenas triste.

Para encerrar, a frase de João Guimarães Rosa no original: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL