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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly - A camisa amarela no divã

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL*

07/09/2021 04h00

Com Paola Lins de Oliveira

Eu tinha dois anos quando o Brasil foi campeão do mundo em 1970. Morava no Rio, na rua General Glicério, em Laranjeiras. Tenho flashes desse dia: minha mãe na máquina de costura fazendo uma bandeira do Brasil, meu pai de camisa social de mangas curtas, eu em seus ombros, nós três no elevador, nós três na rua, a rua lotada de gente cantando e festejando. Foi esse meu primeiro encontro com um time que, nos anos que viriam, eu aprenderia a amar e a odiar.

Não me lembro de ter sentido uma tristeza mais profunda no futebol como senti na derrota em 1982, e não me lembro de ter sentido uma euforia mais debochada e alucinante do que a dos sete a um em 2014. Entre 1982 e 2014 muitas coisas aconteceram que me fizeram detestar profundamente a camisa que um dia amei. Sinto uma infinidade de emoções por essa camisa, mas a indiferença e o desprezo nunca estiveram nessa lista.

Bandeira do Brasil e camisa da seleção - UOL TAB - UOL TAB
Imagem: UOL TAB

Vi com horror a camisa amarela ser apropriada por uma horda de desavisados que pediam a derrubada de uma presidente legítima e honesta. Com o mesmo horror vi a classe média vestir a camisa amarela para ir às ruas gritar por políticas que em pouco tempo a devoraria e devastaria. E nesse sete de setembro que se anuncia macabro e violento, vejo com revolta a camisa amarela ser usada por liberais-fascistas que, com o motor quente e potente de suas motocicletas entre as pernas, berram pelas ruas por um Brasil autoritário, conservador, branco, masculino e heteronormativo que eles julgam ter sido perdido.

Recentemente, por sugestão do meu amigo Antonio Amancio, capaz de enxergar o debate público num futuro próximo, e de refletir sobre ele como ninguém, fui estudar os quês e os porquês essa camisa mobiliza tantos afetos contraditórios não apenas em mim, mas em quase todos e todas nós. Como minha mulher é antropóloga e pesquisadora - a melhor - recorri a ela para executar a pesquisa que amparou esse texto que pretende refletir sobre o que fazer com a camisa amarela.

"A seleção brasileira de futebol foi, pouco a pouco, transformando-se na encarnação preferencial da nação brasileira", escrevem Simoni Lahud Guedes, Edilson Marcio Almeida da Silva no ensaio "O segundo sequestro do verde-amarelo: futebol, política e símbolos nacionais".

Para eles, esse foi um processo que gerou a metonímia 'seleção brasileira = povo'. "Depois de um início restrito a rapazes bem-nascidos, pertencentes às elites das grandes cidades, o futebol masculino espalhara-se por todas as camadas sociais, não sem conflitos", escrevem. "Sem exageros, podemos dizer que, neste processo, o 'povo' foi protagonista pela primeira vez". Isso porque, com a conquista do profissionalismo em 1933, muitos jogadores profissionais vieram das camadas mais pobres da população.

Os autores contam que um ponto de inflexão nesse processo simbólico foi a seleção brasileira na Copa do Mundo da França, em 1938. Gilberto Freyre produziu sobre essa seleção uma crônica que teria sido "a certidão de batismo do futebol arte", chamada "Football mulato". Termo hoje objeto de intensa e justificada revisão crítica, possuía um sentido bastante particular para Freyre em se tratando de futebol. Seguimos aqui com as palavras dos autores. Eles dizem: "Freyre incluiu esta prática esportiva em sua tese mais ampla sobre a importância do negro na produção da brasilidade. A presença negra e mulata - e pobre - reforça a própria ideia do futebol como representante da nação".

Para o antropólogo Roberto DaMatta, foi através do futebol que o povo brasileiro pôde finalmente juntar os símbolos do Estado nacional (a bandeira, o hino, as cores nacionais) - elementos que sempre foram propriedade de uma elite restrita e dos militares - aos seus valores mais profundos.

Pelé, de costas, comemora gol da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Pelé, de costas, comemora gol da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970
Imagem: Divulgação/Netflix

Nesse contexto, 1970 foi um marco, como explicam Guedes e Silva: "A partir do transbordamento do orgulho nacional com o tricampeonato mundial de futebol, em plena ditadura militar, desafiava as rígidas regras de exposição e uso dos símbolos nacionais. Começavam a surgir as bandeiras improvisadas, ao passo que a indústria pouco a pouco providenciava camisas e todo tipo de artefatos, que seriam usados durante as Copas do Mundo da Fifa de futebol masculino e até em outros momentos, muitas vezes, ruas foram pintadas nas cores da bandeira. Ou seja, uma parte significativa da população compartilhou da narrativa sobre o nacional vivenciada através do futebol, apropriando-se das cores nacionais das mais diversas formas".

A estratégia dos militares durante a ditadura deu certo: usaram a seleção para amenizar o regime e tiveram a tremenda sorte de ver seu instrumento de articulação do orgulho nacional vencer o torneio, popularizando símbolos e sentimentos que eram, até então, exclusivos de uma pequena classe dominante.

Os autores seguem: "A bandeira nacional, que só podia ser tocada, manuseada ou exposta dentro das rígidas regras estabelecidas em decretos, podia agora ser enrolada nos corpos dos torcedores, ornamentar camisas, calças, roupas de banho. Podia ser estilizada, modificada. Podia ser confeccionada em tamanhos muitos diversos. Além disso, a reprodução das camisas do selecionado ocupava as ruas tanto nos períodos de competição quanto no tempo do cotidiano. Nos períodos de Copa do Mundo, as casas, ruas e automóveis eram enfeitados de verde e amarelo. Como símbolo da nação, estas cores representavam fisicamente a comunidade imaginada Brasil.

Mas as coisas começam a mudar na virada do século 20 para o 21, quando há uma ruptura na equação "seleção - povo - nação": o futebol se torna um mercado bilionário e vai se afastando da população. Ainda assim, a camisa amarela da seleção, enquanto símbolo, permanece vivo, até que, em junho de 2013 uma nova ruptura se faz: "Se nas manifestações de 2013, a exemplo do que ocorre durante as Copas do Mundo do Futebol, a comunidade nacional brasileira assumia os contornos de um todo integrado, atualmente, isso se tornou impraticável", explicam Guedes e Silva.

Ali, em vez da defesa de uma causa comum, foram colocados frente a frente duas diferentes ideias de mundo, duas agendas políticas, dois projetos de Brasil. Para os autores, a 'guerra simbólica' se concentrou no vermelho X verde-amarelo.

Atualmente, muitos brasileiros têm evitado a camisa amarela para não serem confundidos com conservadores e nacionalistas de direita. Mas, explicam os autores, "como tais símbolos e cores são da nação (isto é, de toda a nação) e não de apenas uma parte dela, a sua apropriação, seja por um partido, um regime político ou mesmo por uma parcela da população (ainda que majoritária), implica, por consequência, na expropriação de todas as demais" Os autores dizem que é a isso que eles chamam de "segundo sequestro do verde e amarelo".

Vendedor ambulante e pessoas com camisa da seleção - UOL TAB - UOL TAB
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Eles escrevem que a direita acabou por monopolizar o uso do verde-amarelo e assim se constituir na única corrente portadora de uma narrativa legítima sobre o Brasil. E questionam se o abandono da camisa amarela estampada com escudo da CBF por muitos de nós teria sido uma boa estratégia.

Diante disso, refletem: "os símbolos nacionais representam que existe algo maior que nos une, mesmo que por um processo de 'esquecimento'. Se não são compartilhados, apesar das diferenças e das divergências, estaremos nos negando como nação. Desse modo, se quisermos continuar a nos compreender como tal deveremos, mais uma vez, resgatá-los como garantidores do acordo tácito que nos possibilita conviver em uma sociedade democrática".

Mas como lutar por esses símbolos diante do que estamos vivendo? Tentar separar a camisa amarela dos acontecimentos que nos trouxeram a esse estado de coisas é tarefa ingrata e, talvez, impossível. Vale a pena disputar a camisa amarela? E se a resposta for sim, deveríamos começar buscando separar a seleção do uso que as classes dominantes fazem dela?

Para o brasilianista Robert M. Levine, professor do Departamento de História na Universidade de New York, o futebol não somente inebria e confunde o povo, mas serve de instrumento da classe dominante para manipular as massas como forma de sublimar a miséria e as desventuras da pobreza, através do sucesso meteórico da conquista de um campeonato doméstico ou internacional. Ele considera que o significado principal do futebol tem sido o seu uso pela elite para apoiar a ideologia oficial e dirigir a energia social por caminhos compatíveis com os valores sociais prevalecentes.

Em "Aspectos sociopolíticos do futebol brasileiro", Waldenyr Caldas, professor de Sociologia da ECA-USP (Revista USP, n. 22, 1994), lemos: "Qualquer análise ideológica que se queira fazer no futebol de modo geral, e do futebol brasileiro em particular, não deve deixar de lado o seguinte argumento: não é o futebol em si nem enquanto manifestação lúdica nacionalmente consagrada que aliena, que desvia a sociedade dos seus problemas mais urgentes. Este fato decorre do uso ideológico que o Estado possa fazer desse esporte, como faria de qualquer outra manifestação que tivesse força popular idêntica. Quem aliena são os governantes que, deliberadamente, usam os esportes de massa com objetivos políticos, quase sempre sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma ética. A grande meta é se manterem no poder"

Por esse raciocínio, se determinados segmentos da sociedade brasileira se distanciaram dos seus problemas mais prementes, a culpa não foi do futebol nem do tricampeonato - diz o autor - e, assim, nem da realização de uma Copa no Brasil, nem dos vexatórios 7x1. "A causa está no estado de terror imposto aos brasileiros, cerceados em quase todos os seus direitos, entre eles o direito à informação e a participação política. Em outro espectro, acredito isto sim na clássica teoria althusseriana dos aparelhos ideológicos de Estado. Os desportos, entre outras coisas, integram o grupo desses aparelhos. Assim como o Estado autoritário pode usar o futebol para corroborar ainda mais o seu poder, no Estado democrático esse mesmo futebol pode dar verdadeiras demonstrações de amor à liberdade e à democracia"

Democracia Corintiana - Sócrates - Jorge Araújo/Folhapress - Jorge Araújo/Folhapress
Sócrates com a camisa da democracia corinthiana
Imagem: Jorge Araújo/Folhapress

Foi isso, lembra Caldas, o que ocorreu com a Democracia corintiana. "Um movimento bem pensado por seus criadores, meticulosos em suas ações, liderado por Adilson Monteiro Alves, ex vice-presidente de futebol do Corinthians e seus companheiros Sócrates, Walter Casagrande, Wladimir, Juninho e outros". Conscientes do que estavam fazendo e daquilo que queriam, eles levaram o Corinthians, em toda sua história, a atingir o mais alto grau de liberdade e de autonomia dos jogadores como profissionais da bola.

Aqui, Caldas puxa o fio até Afonsinho, o primeiro grande rebelde do nosso futebol: "A bem da verdade, para fazer justiça, a gênese da Democracia Corintiana tem muito a ver com o jogador Afonsinho. Famoso por seu talento profissional, pela coragem com que enfrentava os dirigentes e sobretudo pelas posições políticas que assumia, ele sempre agiu com determinação. Foi, durante os anos 70, o primeiro jogador brasileiro a questionar publicamente o sistema político em pleno governo Médici e a denunciar a estrutura arcaica e autoritária em que repousa até hoje nosso futebol. Estudante de medicina e jogador do Botafogo do Rio, ele abriu processo na Justiça do Trabalho em 1974, contra seu clube pelo direito de negociar seu próprio passe. Essa atitude foi um marco na conquista dos direitos do futebolista brasileiro. Vitorioso na justiça, alugaria seu passe aos grandes clubes, conclamando publicamente os demais colegas a fazerem o mesmo. Ainda em 1974, foi convocado para integrar a seleção brasileira que disputaria o campeonato mundial na Alemanha, mas foi cortado mais adiante, justamente por questões políticas".

Afonsinho, infelizmente, não fez escola e hoje estamos carentes de jogadores que tenham consciência política e de classe. Pior: outra vez temos um governo autoritário e repressivo comandado por um presidente muito interessado em futebol - uma combinação explosiva. Só que, ao contrário de 1970, temos uma seleção que pratica um futebol amedrontado, careta, acovardado, conservador e apequenado - ainda que eficiente até aqui.

Em 1970, tínhamos arte. A revista inglesa World Soccer, disse em 2007 que "a equipe brasileira que venceu a Copa de 1970 com tanto estilo tornou-se um mito, uma equipe para ser vista como a representante máxima do jogo bonito". Ficava difícil, portanto, não torcer por ela. Dificuldade que essa seleção de Tite e da CBF não colocam em jogo agora.

Camisa da seleção brasileira - Divulgação - Divulgação
Seleção adotou camisa amarela após Copa de 1950
Imagem: Divulgação

No livro "O Futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país", o jornalista Marcos Guterman lembra da historieta criada por Henfil em 1970 que falava da desconfortável contradição entre lutar contra a ditadura e apoiar uma seleção que a representava. A história era protagonizada por um pensador crítico da mobilização nacional em torno da seleção. O personagem lança imprecações contra torcedores acotovelados diante da TV durante uma partida do Brasil. A sequência, com a reação do intelectual, dispensa comentários: "Um país inteiro para por causa do futebol, mas não para para resolver o problema da fome... Este sim é o verdadeiro ópio do povo! Faz esquecê-lo de que são explorados, subdesenvolvidos... Estou torcendo para o Brasil perder! Assim o povo voltará à realidade e verá que a vida não é feita de gols, mas de injustiças... Nossa realidade não é tão infantil como uma jogada como esta de Pelé invadindo a grande área inglesa e... Pênalti! Pênalti! Juiz filho da mãe! Pênalti, seu safado!"

No mesmo livro, Guterman chama a atenção para a marchinha dos Noventa Milhões em Ação, que embalou a conquista da Copa de 70: "O embalo cívico era dado pela marchinha que dizia "Noventa milhões em ação/Pra frente Brasil/Salve a seleção!/De repente é aquela corrente pra frente/Parece que todo o Brasil deu as mãos/Todos ligados na mesma emoção/Tudo é um só coração!/Todos juntos, vamos!/Pra frente Brasil, Brasil/Salve a seleção!". A música resumia tão bem o projeto do governo Médici que muitos ainda pensam que o presidente foi o autor da marchinha. Na verdade, ele foi, no máximo, um contribuinte involuntário: o autor da letra, Miguel Gustavo, na época famoso compositor de jingles publicitários e sambas, usou uma frase do presidente que teria sido dita nas tribunas do Maracanã durante um jogo do Brasil. A música foi a vencedora de um concurso promovido pelos patrocinadores da Copa. No entanto, a exemplo do slogan 'Brasil: ame-o ou deixe-o', o 'Pra Frente Brasil' é visto até hoje com um hino feito por encomenda da ditadura, uma lenda que resiste ao tempo. Afinal, tudo o que interessava ao regime estava lá: a ideia de unidade nacional ('todos juntos, vamos'), o fim das divergências com vista a um objetivo comum ('parece que todo o Brasil deu a mão'), a paixão pelo país e pelo brasileiro que o representava ('tudo é um só coração') e a ordem de avançar, de um movimento 'pra frente", numa só "corrente""

O autor diz ainda que a disciplina de perfil militar, exaltada como importante para recolocar o país nos trilhos, foi considerada um pilar do tricampeonato. "Mesmo a composição da comissão técnica da seleção já denotava o desejo de militarizar a seleção. [...] Essa tendência se acentuaria dramaticamente nas duas Copas seguintes. Não haveria triunfo sem a dedicação harmoniosa e ordenada dos brasileiros - essa era a mensagem que o governo militar tratara de explorar. No discurso da vitória na Copa, depois de aparecer enrolado na bandeira nacional e de levantar a Taça Jules Rimet ao lado dos campeões do mundo, Médici capitalizou:

'E identifico, na vitória conquistada na fraterna disputa esportiva, a prevalência de princípios que nós devemos amar para a própria luta em favor do desenvolvimento nacional. Identifico no sucesso de nossa seleção de futebol a vitória da unidade e da convergência de esforços, a vitória da inteligência e da bravura, da confiança e da humildade, da constância e da serenidade, da capacitação técnica, da preparação física e da consistência moral. Mas é preciso que se diga, sobretudo, que os nossos jogadores venceram porque souberam ser uma harmoniosa equipe, em que, mais além que a genialidade individual, afirmou-se a vontade coletiva. Neste momento de vitória, trago ao povo minha homenagem, identificando-me todo com a alegria e a emoção de todas as ruas, para festejar, em nossa incomparável seleção de futebol, a própria afirmação do valor do homem brasileiro'.

A conquista da Copa vitaminou o regime para a eleição direta de 1970, que renovaria o Congresso e serviria, nos cálculos de Médici, para demonstrar o apoio popular à ditadura e para dizer aos críticos - sobretudo os do exterior - que o país vivia em clima de liberdade".

Saímos disso para construir seleções nada encantadoras - 1974, 1978 - até que chegamos a 1982, com o Brasil convulsionando por liberdade, democracia e justiça. Mobilizados por esses sentimentos de mudança, fomos capazes de formar uma seleção memorável que me custou a maior das dores no futebol.

Guterman lembra que a derrota na Espanha em 1982 pareceu acordar os brasileiros para a realidade de um país em transição, em profunda crise, tanto econômica quanto de identidade. Escreve ele:

"A abertura democrática, ainda que tímida e claudicante, aparentemente foi um lampejo de ânimo naquele momento, apontando para possibilidades de mudança que superassem a sensação de inviabilidade do país. Em novembro, o país faria sua primeira eleição direta para governadores de Estado desde 1965, ao mesmo tempo em que renovaria todos os níveis do Legislativo. A resposta do eleitorado foi impressionante: 45 milhões de pessoas foram às urnas, o maior contingente em toda a história latino-americana até então. Num autêntico plebiscito do governo militar, a oposição obteve 59% dos votos, mas, graças às manobras casuísticas do regime, não conseguiu fazer a maioria no Congresso nem no Colégio Eleitoral que escolheria o sucessor de Figueiredo. No entanto, o voto popular havia dado à oposição a oportunidade de impedir que o governo aprovasse qualquer projeto legislativo, desde que votasse em bloco. Além disso, foram eleitos candidatos opositores em nove estados, entre os quais os três principais: São Paulo, com Franco Montoro; Rio de Janeiro, com Leonel Brizola; e Minas Gerais, com Tancredo Neves. O quadro econômico, porém, impediu que os governos estaduais de oposição pudessem superar os problemas e promover as mudanças sem depender diretamente do governo federal. Um momento-chave dessa crise foi uma manifestação de desempregados em São Paulo em 4 de abril de 1983, que degenerou em saques e depredações; alguns foram ao Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista, e derrubaram a grade do prédio, sob o olhar assustado de Montoro. Com as imagens daquele episódio, no frigir dos ovos, havia dúvida sobre se o país estava pronto para completar sua transição rumo à democracia, ou se um regime autoritário ainda era necessário para conduzir a economia e superar a turbulência. A crise de identidade brasileira, como se vê, não era exclusividade do futebol".

Ainda Guterman:

"O governo Figueiredo assinou um acordo com o Fundo Monetário Internacional em janeiro de 1983, com uma série de metas que o Brasil teria de cumprir para receber empréstimos e não seguir o exemplo do México, que decretara a moratória de sua dívida externa no ano anterior. A despeito da saraivada de críticas da oposição nacionalista, que exigia a moratória, as alternativas para o financiamento das contas brasileiras eram escassas, uma vez que a oferta de crédito externo foi simplesmente nula ao longo dos anos 1980. Enquanto isso, o PIB brasileiro recuou 5% em 1983, um tombo espetacular e inédito na história nacional. A renda per capita do Brasil caiu 7,3%. A capacidade ociosa da indústria nacional - isto é, a diferença entre o que é produzido e o que poderia ser produzido - chegava a 50%. O desemprego subiu 15%, comparado a 1978. Finalmente, a inflação em 1983 chegou a espantosos 211% ao ano, e os salários perdiam seu valor cinco vezes mais rápido do que em 1978. Em pouco tempo, a crise consumiu todo o ganho da economia brasileira nos anos do "milagre". Com isso, somando-se à perda progressiva de prestígio e apoio popular, os militares começam a falar em "voltar aos quartéis" - entre outros motivos porque o próprio Exército se via sucateado em razão da precariedade econômica do país, e era preciso que os generais se concentrassem em recuperar a instituição. A imagem dos militares estava desgastada porque, afinal, sua legitimidade se baseava na suposta capacidade de fazer a economia crescer".

Em "As relações jocosas futebolísticas. Futebol, sociabilidade e conflito no Brasil", Édison Gastaldo diz que Simoni Guedes definiu o futebol brasileiro como "instituição zero", isto é, um significante vazio, mas pleno de potencialidades de significação: "Em outras palavras, no Brasil, o campo simbólico do futebol pode ser tomado como exemplo de muitas coisas diferentes: da tradicional metonímia da Seleção brasileira como 'o povo brasileiro em campo' às mazelas dos dirigentes de clubes como metáfora da classe política e suas negociatas, passando pelo desempenho de cada jogador em campo - ou mesmo fora dele - metáfora de condutas privadas, honrosas ou desonrosas".

Podemos ter uma ideia mais embasada do peso que essa camisa tem e de como a expressão "entorta varal" pode ser alargada para embarcar toda essa simbologia para além do campo e dos vestiários.

Roberto Carlos, pela seleção brasileira - Divulgação - Divulgação
'Por que não adotar novamente a camisa branca?'
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Em "O Brasil no horizonte dos megaeventos esportivos de 2014 e 2016: sua cara, seus sócios e seus negócios" de Arlei Sander Damo e Ruben George Oliven, entendemos que a transformação do time da Confederação Brasileira de Futebol em "seleção brasileira", ou simplesmente "Brasil", envolve um processo de investimento simbólico realizado ao longo de algumas décadas e cuja atualização ocorre, de forma mais intensa, nos períodos que antecedem às copas ou competições equivalentes. "A cada quatro anos, uma nova leva de brasileiros aprende que o time da CBF é o Brasil e é instigada a torcer por ele. A força do time da CBF apresentado, acreditado e vivido - como a seleção brasileira deriva do fato de que os brasileiros se não todos, a grande maioria deles são envolvidos emocionalmente com ele. O Brasil não é o único país no qual um time de futebol foi alçado a símbolo da nação, mas o fato de que não tenhamos um histórico belicoso, de onde a nação pinça boa parte de seus heróis e narrativas épicas, faz do time da CBF uma unanimidade ou quase".

Tudo isso escrevi e pesquisei - com a incomparável ajuda e genialidade de minha mulher - para tentar pensar o que fazer com a camisa amarela da seleção. Disputá-la? Rejeitá-la? Esquecê-la? Ignorá-la?

E então me ocorreram duas coisas.

A primeira é que até a Copa de 1950 realizada no Brasil, a seleção usava como uniforme uma camisa branca e uma bermuda azul. Depois da derrota, a combinação foi considerada azarada e, assim, aposentada. Como forma de nos reconciliarmos com essa derrota e de corrigir o que fizemos com Barbosa, o goleiro negro que acabou sendo responsabilizado por um fracasso que não era dele, por que não adotar novamente a camisa branca? Deixar a amarela descansar e colocar pra jogo uma página em branco sobre a qual possamos começar a criar uma nova ideia de nação.

E a segunda coisa que me ocorreu é a seguinte: quem, meu Deus, fica bem de amarelo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL