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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Como narradores podem ajudar na luta contra a violência sexual

Cuca completou 43 partidas no comando do Atlético-MG nesta segunda passagem pelo clube - Pedro Souza/Atlético
Cuca completou 43 partidas no comando do Atlético-MG nesta segunda passagem pelo clube Imagem: Pedro Souza/Atlético
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

03/09/2021 17h13

Tenho visto muitos jogos do Atlético de Cuca porque se trata de um dos poucos times que me comovem. Mas, se por um lado é um prazer ver o Galo em campo, por outro tenho receio de escutar narradores e comentaristas se referirem a Cuca como um homem de respeito, um gentleman, um cara acima da média - como já ouvi duas vezes em semanas recentes. Nas duas ocasiões, procurei por colegas de trabalho na esperança de ter escutado errado. Mas elas confirmaram o que ouvi e se mostraram igualmente horrorizadas.

Portanto, para não correr o risco de testemunhar outra vez esse pacto macabro de masculinidade que sussurra "podem parar de lutar, todos nós fazemos isso, não vamos condenar o amigo que apenas faz o que fazemos desde sempre", tenho deixado os jogos do Galo no mudo (só Milton Leite me dá a certeza de que nada do tipo será dito e, se ele narra, escuto sem medo).

O que me incomoda nessas colocações sobre a respeitabilidade de Cuca é o solene esquecimento da condenação dele por envolvimento no estupro coletivo de uma garota de 13 anos. Queria pedir um minuto de atenção para a gravidade desse episódio.

Cuca foi condenado na Suiça em 1987 por violência sexual contra menor. Ele nega as acusações e diz que foi condenado à revelia. Verdade. Mas foi condenado à revelia apenas porque, covardemente, nem se fez presente ao julgamento. Na época, a declaração do advogado de defesa não deixa nenhuma dúvida sobre o envolvimento de todos os que estavam sendo acusados, Cuca entre eles.

Se Cuca nega, não há como reparar o malfeito. A gente só começa a corrigir erros, por piores que sejam, a partir do momento que os admitimos. Pois é: a pena prescreveu, Cuca já pode entrar em solo Suiço, mas sem que ele fale desse assunto com a seriedade, com a honestidade, com a clareza que o tema merece não há como esquecer, deixar pra lá, fingir que não aconteceu.

A entrevista que ele deu para minha amiga Marilia Ruiz revela todo o seu desconforto e constrangimento e, mais ainda, todos os esforços para evitar falar sobre o que precisa ser dito. Um homem arrependido de ter praticado violência sexual contra mulheres (alguém conhece um?) estaria mobilizado em campanhas, articulando colegas, chamando a atenção para a cultura da violência contra todas nós.

Usar camisetas com Nossa Senhora estampada não faz de ninguém um santo. Ser gentil com setoristas não faz de ninguém "homem de respeito". Ser parça de repórteres não absolve machismos e misoginia. A condenação por envolvimento em estupro é uma mancha na jornada de Cuca nesse planeta e, diante do horror, não temos por onde escutar palavras como gentleman, "respeitável" e "digno" se referindo a Cuca sem nos revoltarmos.

O que pode ser dito sobre Cuca sem que elogios feitos a ele ofendam a todas nós? Pode-se dizer, por exemplo, que se trata de um dos melhores treinadores em atuação hoje no Brasil, de um profissional dedicado, de um técnico que monta times extremamente competitivos. Tudo isso é do jogo. Mas chamá-lo de "respeitável" e "gentleman" é ofender todas as mulheres que trabalham com esportes, todas as que assistem, todas as que existem.

Os dados da violência contra a mulher são aterrorizantes. Elegemos um presidente que fez apologia ao estupro. A cada oito minutos uma mulher é estuprada no Brasil; quase 60% das vítimas tinham no máximo 13 anos. Eu não conheço mulher que não tenha sido abusada, assediada, estuprada. Minha primeira experiência com a violência sexual foi aos 11 anos. Perguntem para as mulheres de suas vidas - mães, irmãs, primas, tias, namoradas, companheiras - se elas já passaram por algum tipo de situação em que seus corpos foram sexualmente violados. Vocês teriam coragem de fazer esse exercício?

Por tudo isso, quando vocês, caros colegas, chamam Cuca de gentleman, para além da cafonice do anglicismo, vocês diminuem um ato medonho, perverso e covarde como o estupro e, nessa esteira, diminuem a todas nós também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL