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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Flamengo mobiliza sentimentos cada vez mais estranhos

Adílio comemora gol do Flamengo contra o Liverpool, no Mundial de Clubes de 1981 - Peter Robinson - PA Images via Getty Images
Adílio comemora gol do Flamengo contra o Liverpool, no Mundial de Clubes de 1981 Imagem: Peter Robinson - PA Images via Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

02/08/2021 12h54

Eu seco o Flamengo há décadas. Sequei com impressionante êxito na fase em que o Fluminense tinha Assis e Washington no ataque. Sequei pessimamente quando o time era feito de gênios como Zico, Junior, Adílio, Rondinelli, Tita. Sequei outra vez com sucesso na ocasião em que Renato Gaúcho fez o gol de barriga e sequei com um requintes de crueldade quando Péricles Chamusca e seu Santo André calaram o Maracanã. De cabeça me lembro desses. Ah, sim, e de quando morava em Nova York e vi, felizona, o Galo fazer 4x1 no jogo da volta pela Copa do Brasil e, com isso, eliminar o Flamengo de virada.

Em algumas dessas situações eu estava no Maracanã com meu pai. A derrota mais sofrida que testemunhei ao lado dele foi um 4x0 "fora o baile" pelo Carioca de 1978. Saímos em silêncio, ao lado de amigos flamenguistas, que, elegantemente, também estavam calados embora, imagino, tenham berrado muito assim que nos separamos.

Desde sempre existe em mim um espaço onde o Flamengo pulsa entre a raiva e a admiração. Meu pai, tricolor doente; tio Tavo, irmão mais velho de meu pai e tio cuja bondade, amor e ternura a gente não tem como esquecer, Flamenguista roxo.

Mas a partir de Jorge Jesus e daquela virada absolutamente absurda e inacreditável contra o River na final da Libertadores outros afetos passaram a ser mobilizados quando o assunto é Flamengo; se antes o aspecto essencial era fundamentalmente torcer contra um rival, depois de Jesus a dimensão do futebol-arte ganhou bastante apelo.

O Flamengo está mostrando que um time pode jogar ofensivamente e vencer. Que existe a possibilidade de fazer 1x0 e seguir querendo gols. Que talvez jogadores não precisem guardar suas posições com tanto afinco, que eles podem se alternar, que o lateral esquerdo pode perfeitamente aparecer na ponta direita. Que futebol é movimento, criatividade, diversão e arte.

Esse Flamengo, agora de Renato Gaúcho, deixa evidente que o jogo é coletivo, que se o time está com a bola, os jogadores que estão sem a bola precisam oferecer alguma possibilidade de jogada àquele que tem a bola. Que o futebol de hoje não comporta mais falta de movimentação e de intensidade. Que fazer gols, tantos quanto forem possíveis, é a vontade maior.

Esse Flamengo que eu vejo em campo mostra que o jogo pode, afinal, encantar, entreter, empolgar e, que coisa linda, vencer. E que outros times deveriam adotar filosofias de jogo que combinem com o Brasil que respira e existe pelas frestas, esse Brasil que todos os dias se opõe ao Brasil institucional, careta, conservador e covarde.

O Flamengo em campo, a despeito do comportamento indecente de uma diretoria que paparica genocida, representa um Brasil que pulsa e vibra, que faz arte com pouco, que se recusa a morrer. Por tudo isso, ficou mais difícil e mais chato secar o Flamengo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL