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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que alguns chamam de fracasso a gente chama de começar de novo

Marta cobra pênalti na partida entre Brasil e Holanda no futebol feminino em Tóquio - Sam Robles/CBF
Marta cobra pênalti na partida entre Brasil e Holanda no futebol feminino em Tóquio Imagem: Sam Robles/CBF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

30/07/2021 14h55

Quantas conquistas estão dentro de uma derrota? Quantas vitórias fazem parte de uma eliminação? Quanta superação está inserida numa desistência?

Nossas histórias são filmes e não fotografias; e poucos sabem sobre a totalidade do filme. Quando Simone Biles diz "eu desisto" os tolos que só sabem ver a imagem congelada enxergam na decisão uma fraqueza. Mas, vejam, estamos falando de uma pessoa que foi seguidamente abusada pelo médico que deveria zelar por seu bem-estar e por sua integridade física e moral e, ainda assim, não desistiu. Que tipo de potência pulsa em cada mulher que, abusada, humilhada e reduzida a uma parte de seu corpo, não desiste?

E mesmo nas que desistem. Que tipo de pedra fundamental está fincada em nossas fundações para que, todos os dias, consigamos seguir de alguma forma?

O futebol feminino era, até 2019, quase uma aberração para a CBF. Tudo o que foi conquistado até 2019 não foi em parceria com a CBF; foi a despeito dela. Faz apenas dois anos que existe algum tipo mínimo de organização e de planejamento. Estamos falando de um esporte que chegou a ser proibido por lei há ridículos 40 anos. Eu mesma, aos sete, fui arrancada de uma quadra por duas professoras que berravam "menina não joga bola". E, ainda assim, foi nesse cenário árido e improvável que surgiu a melhor jogadora da história do futebol mundial.

Que tipo de força seríamos se o futebol feminino tivesse sido levado tão a sério quanto o masculino? Perderíamos para o Canadá nas Olimpíadas de 2020? Quantas medalhas e mundiais já teríamos? Será que a gente tem alguma noção de quantas vitórias e conquistas e superações estão contidas na eliminação dessa sexta-feira para as canadenses?

Essa é a Olimpíada das mulheres. Por todas as nossas vitórias e também por todas as nossas derrotas. Por todas as vezes que superamos marcas e por todas as vezes que dissemos "eu desisto". Por todas as vezes que batemos um recorde nos revelando completamente inabaláveis e por todas as vezes que tivemos a coragem de nos mostrar vulneráveis. Por todas as gargalhadas e por todas as lágrimas. Por tanta dor e por tanto amor.

Ser mulher, cis ou trans, é se enxergar deslocada dentro desse mundo de valores masculinos. Ser negra num mundo branco; ser LGBTQ num mundo hétero. Essa exclusões e opressões falam de dores, perdas e tristezas, mas também de prazeres, conquistas e alegrias. Falam de solidões, mas também de uniões.

Quando uma mulher perde, é eliminada, é desclassificada, o pranto que vocês veem vem de um lugar de potência, uma fresta dentro da qual todas nós sabemos que existe um infinito de recomeços e de re-agrupamentos. É do chão que a gente volta requebrando mais forte. Não, não deveria ser assim. Mas é assim que é. Para que uma realidade seja transformada ela precisa primeiro ser identificada. E é em cima dessa oportunidade para transformar que a gente dança, que a gente se permite gozar e erotizar.

Ganhar é bom, mas perder é fundamental. O tempo da vida não é o nosso tempo e algumas coisas demoram para acontecer mais do que gostaríamos. Mas um dia os ventos mudam, o que era improvável passa a ser provável, o que um dia parecia impossível vira possível.

O futebol feminino vai ganhar seu ouro, vai chegar ao topo do mundo, vai ser o maior. E, nesse dia, um milhão de Martas sorrirão sobre um solo que, enfim, terá aprendido a tratar quem nele brota, insiste e resiste.

Por todas aquelas que não subiram num pódio, por todas as que desistiram, por todas as que não conseguiram, por todas as que foram silenciadas, invisibilizada, assassinadas. A gente segue. Porque o que alguns chamam de fracasso a gente chama de começar de novo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL