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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A xereca e os limites aceitáveis da originalidade numa transmissão

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/07/2021 15h37

Assim como a atleta Rayssa Leal, a comentarista Karen Jonz tem atraído muita atenção durante as competições de skate nas Olimpíadas. A comentarista, que se coloca de forma honesta e autêntica ao analisar as provas, disse que recebeu um toque da direção do canal depois de transformar xereca em verbo ("ela xerecou nos jogos", comentou Jonz quando uma competidora caiu de pernas abertas sobre o corrimão durante uma manobra).

Imediatamente, pelos motivos certos e pelos motivos errados, a colocação de Jonz viralizou nas redes sociais. Não se fala xereca impunemente nessa nossa sociedade, é verdade.

Em compensação, quando um jogador de futebol leva uma bolada ou um pontapé no saco, narradores e comentaristas adoram fazer piadas a respeito, e o diretor de imagem também se amarra em mostrar o lance sob múltiplos ângulos. Falar "pau" não choca ninguém e Jonz dificilmente seria chamada de lado se tivesse feito comentário parecido envolvendo o sacro-santo-todo-poderoso pênis. Se Jonz tivesse mandado um "eu pago um pau para a Rayssa" passaria batido. Já um "eu pago um grelo para a Rayssa" talvez rendesse o já famoso "se liga".

Assim, o "xerecou" deu o que falar e produziu até manchetes do tipo "comentarista usa fala inusitada". Acho que toda mulher cisgênero vai concordar que nossas bucetas são tudo menos inusitadas. Elas são, ao contrário, muito habituais. É uma pena que a sociedade em que vivemos não consiga sequer chamá-la por seu nome: buceta, xereca, xana, vagina.

Trata-se, na real, de uma invisibilidade construída ao longo de séculos. Não se fala buceta, não se elabora a respeito da xereca, não há motivo nenhum para dar tanta importância ao órgão sexual daquele gênero que o presidente eleito chama de "fraquejada".

Com efeito, o órgão sexual de uma mulher cisgênero nunca foi de grande interesse para uma ciência feita por homens e para homens, o que é bastante curioso dado que vivemos numa sociedade dentro da qual a maioria dos rapazes alega sentir atração sexual por mulheres. Aliás, a anatomia completa do clitóris, o ponto de prazer da nossa buceta, só foi completamente descrita na década de 1990. A urologista australiana Helen O'Connel foi a pioneira.

Não é por acaso que a frase "mulher não gosta de sexo" é tão popular. Mulher não gosta de sexo ruim, e isso a gente precisa deixar evidente. Não saber onde fica o clitóris, o que ele faz, como tocá-lo ou sequer demonstrar interesse por ele é o caminho mais curto para uma transa fracassada - e foi assim que se transou nesse mundo por milhares de anos. Então não surpreende que a gente preferisse ver o por do sol, cortar uma cebola ou dar um pulo no shopping do que transar.

Fazer com que a simples e bem colocada menção a uma buceta seja motivo de "opa, pera lá, tudo tem limite" não vai nos ajudar a construir um mundo de mulheres mais felizes e plenas, nem trabalhar para a desconstrução do machismo - muito pelo contrário.

A gente precisa celebrar a coragem e a autenticidade de Karen Jonz e torcer para que ela siga tendo espaço para dar o seu recado porque é por essas frestas que se faz na estrutura das instituições que a luz entra. E precisamos lamentar que a palavra xereca ainda crie tanta polêmica, tanto desconforto, tanto "se liga".

Xerequemo-nos cada dia mais porque um mundo que naturaliza bucetas é um mundo dentro do qual vai ser mais prazeroso existir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL