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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Douglas Souza, do vôlei, vale por um Brasil inteiro

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/07/2021 12h58

Hoje fiquei muito chateada comigo. Como eu não sabia quem era Douglas Souza, esse homem que está sendo o responsável por me obrigar a torcer pela seleção masculina de vôlei como se fosse o Corinthians em quadra?

Desde cedo tenho recebido mensagens com as postagens que Douglas está fazendo em sua rede social direto do Japão e demorei para acreditar que pudesse existir dentro da nossa delegação alguém tão aberta, declarada e orgulhosamente gay como ele.

Douglas é um homem publicamente gay, mas claro que isso não é salvo conduto para ser automaticamente uma pessoa bacana (basta pensar no governador gaúcho Eduardo Leite, recém saído do armário e um dos que votou orgulhosamente em um candidato que disse que se tivesse filho gay espancava, entre outras delinquências). O que é arrebatador em Douglas é o fato de ele não ter medo de se exibir como é, especialmente num meio sempre tão machista, misógino e Lgbtfóbico.

Em suas redes sociais, Douglas escancara feminilidade e, ao fazer isso, transforma ofensa em deboche, pega para si, orgulhosamente, o que parece ser uma de suas dimensões mais naturais e, sozinho, coloca no chão décadas de hipocrisias e silenciamentos.

Mesmo o Brasil da direita-liberal-progressista, essa mesma de Eduardo Leite que se coloca alinhado a pautas LGBTQs, não tolera muito exibições orgulhosas de feminilidade vindas de um homem. Afinal, tudo o que é associado ao feminino é considerado fraco, desprezível, objetificável, emotivo, irracional.

Douglas rasga e tritura esses preconceitos, inundado da força que só aqueles que sabem quem são podem ter.

A comunidade LGBTQIA+ não é uma massa homogênea, evidentemente. Somos muito diferentes entre si e carregamos uma infinidade de subjetividades, de desejos, de gostos, de ideias, de comportamentos. Mas é sempre importante quando uma pessoa pública pega para si a bandeira e chacoalha ela em nossas caras, como está fazendo Douglas.

Douglas é ponta, é multi-campeão desde jovem, é um retrato desse Brasil-coragem que todos os dias tentam assassinar, silenciar, apagar. É um representante desse país que existe nas frestas e que se opõe, diaria e intensamente, ao Brasil institucional, colonial, colonializado, encaretado, acovardado.

É preciso muito brio, mas muito mesmo, para ser quem se é dentro de uma sociedade que todos os dias deixa claro que não nos tolerará.

Somos o país que mais mata LGBTQs no mundo, e também o que mais consome pornografia LGBTQ no mundo. Vivemos uma crise de desejo e de falta de coragem; essa mesma que em Douglas sobra é a que carece aos machos que andam por aí fazendo arminha com as mãos, vomitando preconceitos, escondendo suas inspirações mais sinceras.

Pois é. Esse Brasil violento terá que ver pela tela da TV um gigante chamado Douglas Souza e então fazer de tudo para lidar com seus desejos. Vai lá, Douglas, coloca essa e todas as outras bolas no chão, arrebenta as correntes de uma sociedade que não parece ter vergonha de se mostrar a cada dia mais careta e covarde.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL