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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A estranha relação entre futebol e casas de apostas: é imoral, quer valer?

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

10/07/2021 13h14

Acho que não sou apenas eu que não aguenta mais escutar aquela voz gritando "quer valer?" nos intervalos comerciais entre partidas de futebol. É uma das propagandas mais chatas já criadas, sem dúvida. Mas para além da chatice e do infernal bordão tem um debate que talvez tenhamos que enfrentar e que trata da relação entre esportes e apostas em dinheiro.

A legalidade desse tipo de atividade é recente no Brasil, e ainda estamos tentando estabelecer regras de convívio para essa relação perigosa. Perigosa porque até os mais ingênuos sabem que nos lugares em que o dinheiro entra com muito poder ele tende a causar estragos éticos, morais e até espirituais.

Claro que desde que esportes competitivos existem, existem também as apostas. Não se trata de uma novidade. A novidade é a concentração de renda e de poder nas mãos de algumas corporações, e a relação que essas corporações passam a ter com o esporte e, nesse caso, com o futebol mais especificamente.

Sou filha de um pai maravilhoso, que me deixou de herança o amor pelo futebol entre outras muitas poesias, mas que durante toda a vida foi um homem viciado em jogos de azar. Sei que tipo de estragos o vício pode causar em aspectos individuais e também familiares. Mas, claro, o álcool também faz isso e há aqueles que bebam socialmente e não se viciem. Não acho que tenhamos que dicotomizar o debate colocando ele na chave do certo e do errado, do moral e do imoral, mas apenas trazê-lo para a superfície e abordar prós e contras, perigos e benefícios, coisa que não está sendo feita.

Existe uma enorme zona cinza de aspectos imorais e anti-éticos que misturam apostas a dinheiro e esse jogo que a gente tanto ama, o futebol. Convidar jovens a apostar indiscriminadamente, como temos feito com impressionante regularidade nos intervalos das partidas transmitidas pela TV, é perigoso e indecente. É preciso que essa relação seja regulada, que os perigos que ela oferece sejam tema de diálogos.

É preciso também que haja regulações muito específicas que envolvam o poder que os aplicativos e sites de apostas têm. O novo patrocinador do São Paulo é também patrocinador do Southampton e do Arsenal, embora não estampe o nome na camisa do último. É, portanto, uma corporação com muito dinheiro e esse jogo de interesses precisa ser muito transparente.

Seria importante saber quem são os sócios dessas empresas, qual o lucro, como aplicam o dinheiro, quais os impactos sociais que produzem, qual a relação trabalhista que mantém com seus funcionários.

Não podemos mais nos dar ao luxo de deixar de nos perguntar quem são as empresas que investem no futebol, como elas atuam no mercado, que tipo de causas sociais as mobilizam. O mundo está passando por momentos de extrema crise financeira, social, moral, sanitária. O planeta está sendo destruído em nome do lucro de poucos e da exploração de muitos. Se a gente ama o futebol precisa cuidar ara que ele deixe de fazer parte desse ciclo imoral de exploração e distribuição de dinheiro.

Porque sem que a gente participe ativamente dessa luta por transparência e regulações, esse esporte tão bonito e capaz de mobilizar tantos bons afetos vai acabar morrendo, se tornando apenas mais uma mercadoria entre tantas outras que estão a serviço dos interesses de uma pequena classe dominante movida a uma desmedida obsessão por acúmulo de poder e de dinheiro. Quer valer?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL