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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futebol, homossexualidade e o gigantesco Vasco da Gama

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/06/2021 11h56

Futebol é coisa pra macho. É esporte viril. É para fortes. Futebol não tem espaço pra frescura, pra amareladas. É o ambiente ideal para que tudo o que é da ordem do masculino se potencialize. É também o lugar onde um homem pode abraçar qualquer outro homem, e às vezes até beijar, desde que seja em ocasião de gol e de título. Fora dessas circunstâncias, não vale abraço e beijo entre homens.

No futebol a gente aprende a xingar, de preferência usando mulheres e o feminino como alvo do xingamento. Filha da puta e viado são dois hits porque nada do que é da dimensão do feminino é aceitável para um homem de verdade e passa a ser material para ofensas.

Mas o que exatamente é da ordem do feminino? Se deixar atravessar por emoções e vulnerabilidades, por exemplo. Chorar em ocasião de futebol até vale, mas precisa ver em que circunstância. Chorar porque levou uma pancada na perna que é coisa de jogo, aí não, por favor. Chorar porque ganhou um título vale. Mas tudo tem limite.

Dentro de um campo de futebol, ou em volta de um monitor que esteja transmitindo uma partida, homens se comportam com liberdade. Claro que estamos falando de um grupo de pessoas que de forma geral se comporta com liberdade nessa sociedade, mas um jogo de bola é um portal para a liberdade plena, e ela envolve até uma certa permissão para que abraços, beijos e lágrimas circulem.

Apenas um completo alienado pode achar que não exista, dentro de um ambiente tão repleto de homens praticando suas masculinidades, homossexuais. Há certamente jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros e torcedores gays. Mas ainda é atitude complexa dizer "eu soy gay" publicamente como fez recentemente um jogador de futebol americano nos Estados Unidos.

O mesmo machismo que impede que homens se deixem atravessar por sentimentos e emoções no dia-a-dia, que coloca nas costas de todos os homens o peso descomunal de ter que ser sempre forte, viril, impenetrável, que impede demonstrações de fraqueza, de cansaço, de tristeza, faz com que exista um pequeno espaço da vida - o futebol - que permita a eles se manifestarem com uma certa autonomia para demonstrar sentimentos e troca de afetos entre si.

Parte da adoração que homens têm pelo futebol deve passar por isso. O machismo, que valoriza tudo o que é da ordem do masculino, faz com que, ao mesmo tempo, homens se admirem uns aos outros mas não possam cair na tentação de revelar essa admiração com muito ímpeto.

Qualquer tipo de atravessamento passa a ser mal visto. Assim, se deixar penetrar, abstrata ou concretamente, é inaceitável. E nesse ponto chegamos à homofobia: homens de verdade não se deitam com outros homens porque, no imaginário popular, a ação exige penetração. O que é uma maluquice porque a próstata pode funcionar como um órgão sexual porque todo homem é capaz de gozar se penetrado - por um homem ou por uma mulher. Heterossexualidade também comporta a penetração masculina e apenas um tipo muito sólido e internalizado de ignorância não aceita essa consciência.

É uma pena que o machismo, pai da LGBTfobia, limite a vida dos homens dessa forma dilacerante. Num mundo justo, num mundo de pessoas emocionalmente emancipadas, todos nos deixaríamos penetrar por emoções, sentimentos, afetos e também por outras pessoas. Estamos dando pequenos passos rumo a esse lugar, embora haja dias que isso não fique tão claro. Hoje não é um desses dias.

Junho é o mês da visibilidade LGBTQIA+ e esse 27 de junho de 2021 entra para a história como o dia em que o Clube de Regatas Vasco da Gama, essa instituição gigantesca, fez do seu uniforme uma importante bandeira da luta pela emancipação de todos, de todas e de todes. Obrigada, Vasco.

E obrigada, Fluminense, que fez com o Vasco uma tabela histórica ao modificar seu uniforme para acomodar as cores da luta LGBTQIA+ e fazendo com que seu capitão, o zagueiro Nino, entrasse em campo usando a camisa 24 e uma tarja com as tonalidades do arco-íris. Nas redes sociais, Vasco e Flu se parabenizaram, numa troca de afetos linda e bastante rara nesse ambiente. O futebol pode ser mais. Fluminense e Vasco, dois gigantes, mostram isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL