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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A vida é ao vivo, é persistente e é enorme

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

14/06/2021 14h51

Quando Christian Eriksen desabou no gramado depois de um mal súbito durante jogo da Eurocopa entre Dinamarca e Finlândia, a narradora Renata Silveira cruzou uma fronteira inimaginável. Sem aviso, sem preparação, sem treinamento. Renata se viu diante de uma tragédia e só restava a ela seguir. Pior: era preciso narrar a tragédia. Palavra por palavra. Sem roteiro. Sem treinamento. Sem saber se acharia nela mesma os recursos emocionais para enfrentar.

Observar uma pessoa morrer - mesmo uma morte revertida como a de Eriksen - é das experiências mais brutais que existem. Ver a vida saindo sabe-se lá para onde, perceber que aquele corpo que até pouco tempo pulsava já não pulsa mais. É ocasião de arrebatamento, de suspensão. Um tipo de circunstância que faz a gente querer se colocar em posição de prece e se curvar diante da potência que é existir.

Uma partida de futebol comporta muita coisa, até mortes metafóricas, mas não a morte real, soberana, impiedosa. Não a morte do corpo, nunca a morte de um corpo.

Eu estava na redação da revista Trip na noite em que o jogador Serginho, do São Caetano, morreu em campo em 2004. Por uma dessas estranhezas da vida, Casagrande estava na mesma sala em que eu porque acho que ele era o entrevistado daquela edição, mas já não lembro mais se era por isso ou por outro motivo; as memórias daquela noite são confusas para mim. O que sei é o que senti.

Ombro a ombro, estávamos diante de um mesmo monitor observando uma mesma tragédia. Não sei se ele vai se lembrar disso como eu, não nos conhecíamos, mas eu, que já tinha ele como ídolo, dizia que não era nada, que o jogador ia se recuperar, ia levantar, era só uma indisposição, já passava. E Casão, muito sério ao meu lado, repetia para ele mesmo de cabeça baixa: é grave, é muito grave, que tristeza...

Eu não posso imaginar ter passado por aquele momento tendo em mãos um microfone e forçada, por dever de ofício, a narrar o que estava vendo e, mais corajosamente ainda, o que estava sentindo. Anos depois a narradora Renata Silveira teria que fazer exatamente isso, e ela foi grandiosa.

Primeiro porque seguiu executando seu trabalho ao vivo. Depois, e talvez ainda mais imenso, porque não se acanhou de dizer o que estava sentindo.

A gente se conecta com a dor do outro mais do que com a alegria. É no sofrimento que a gente se entende humano, companheiros de uma mesma aventura que é uma aventura dificílima de ser encarada: passar por aqui sabendo que um dia deixaremos de existir. Ainda que estivéssemos em uma espécie de paraíso, essa consciência já seria, por si só, devastadora.

A morte de uma pessoa, de um Eriksen que seja, é a morte de um universo.

Quando qualquer um de nós morre, morre um jeito de rir, de abraçar, de sonhar, de dizer eu te amo, de pedir um cafuné, de dançar, de amar. Dentro da gente existe um desenho de células, de sinapses e de conexões que espelha o formato e as cores do cosmo. Não pode ser por acaso. Não pode ser coincidência que sejamos feitos de arquitetura estrelar. Deve ser uma pista, uma dica, um sopro em nossos ouvidos: você é um universo, diz o recado.

Todo ser humano deveria ter direito a uma vida e a uma morte dignas. Morrer quando for a nossa hora, e nem um minuto antes disso.

Eriksen está bem. Não era a sua hora. Assim como não era a hora de quase 400 mil brasileiros e brasileiras segundo pesquisa revelada pela microbiologista Natalia Pasternak durante a CPI da Covid. Três em cada mortes por Covid eram evitáveis. De cada quatro pessoas que morreram desde o início, três teriam deixado de ocorrer se o governo tivesse agido. Entendem? Três em quatro. Mortes que poderiam ter sido evitadas se Jair Bolsonaro tivesse comprador as vacinas na hora em que elas foram oferecidas, se tivesse pedido que usássemos máscaras, mantivéssemos distanciamento, evitássemos nos aglomerar. Quase 400 mil vidas teriam sido salvas se nossas lideranças tivessem sido responsáveis. Quatrocentos mil jeitos de amar. É muita coisa.

Estamos todos e todas narrando nossas mortes, as mortes daqueles que amamos. Ao vivo, como fez Renata. É penoso e injusto. Mas, como ela nos ensinou, uma saída passa por mostrar que a sua dor me afeta. O seu sofrimento me diz sim respeito. Eu me importo com você. Porque a gente tá junto nessa aventura que é estar vivo e eu quero que você saiba que eu me importo.

Por isso a seleção masculina de futebol, essa infâmia, tem o meu maior desprezo. Eles não se importam. Eles não estão nem aí com o que estamos enfrentando. Eles não ligam se o presidente promove aglomeração de motociclistas festivos diante de 500 mil corpos. Eles não se afetam quando esse mesmo presidente diz que não precisamos usar máscaras, que pode aglomerar. Eles não se solidarizam com o colapso de nossas universidades e institutos de pesquisa, não se tocam com o desmonte do SUS ou da cultura. Se qualquer uma dessas coisas os comovesse minimamente eles se manifestariam. Eles dariam um passo à frente. Nem que fosse jogando com uma faixa de luto em seus braços. Mas eles não querem saber.

Os poucos jogadores brasileiros que de fato se manifestam, que se posicionam de verdade, escolhem tomar o lado do fascismo e se inserem simbolicamente nesse genocídio fazendo, por exemplo, arminha com a mão durante a execução do hino nacional (alô, Felipe Melo).

Diante da covardia do futebol masculino brasileiro, só nos resta seguir na luta sabendo que quem nasceu para ser mané, jamais vai ser Renata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL