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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O manifesto já é a maior vergonha da história do futebol brasileiro

Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

09/06/2021 10h41

Os jogadores da seleção brasileira conseguiram uma proeza: a elaboração de um não-manifesto. Talvez seja o primeiro na história, o que não é pouca coisa. Como se não bastasse, ainda deixaram com a gente a receita para que um não-manifesto seja escrito: é preciso um bocado de covardia, o talento para juntar palavras que, associadas, não comunicam nada e a ginga para driblar temas que, para a população brasileira, são da ordem do viver e do morrer.

Para fazer um não-manifesto com competência é preciso, ao que parece, já começar com uma frase vazia de significado - como as demais - mas que contenha logo de cara um grande sexismo e uma generalização tosca:"Quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor".

Não nasce uma torcedora, percebem? Só um torcedor. E que forma linda de reduzir toda uma população - dentro da qual muitos não estão nem aí para o futebol - a um predicado apenas.

Os dribles que eles economizam em campo foram usados a fartar no não-manifesto. Nada sobre as acusações de assédio moral e sexual do cara que até ontem era chefe deles - o que faz boa tabela com o sexismo da frase inicial. Eles simplesmente não ligam se o chefe deles foi flagrado em áudios cometendo abusos e violências contra uma pessoa que - como eles - é uma trabalhadora no exercício de sua função.

Nem uma frase solta sobre os quase 500 mil mortos, nem uma homenagem póstuma às vítimas da chacina do Jacarezinho, nada sobre tantas vidas exterminadas por balas pagas com o dinheiro do contribuinte e pelas mãos do Estado, nada sequer sobre os motivos pelos quais eles aparentemente talvez não quisessem ter jogado a Copa América que eles vão jogar sem também explicar por que farão isso se, ao que tudo indica, pareciam-quem-sabe-talvez ser contra.

O País afundando em lama moral, a população sendo exterminada na base do vírus, da bala e da fome, uma Copa sendo trazida para cá diante desse cenário macabro, jogada sobre esse mesmo solo que não está dando conta de enterrar seus mortos, e os jogadores na corda bamba da decência ética: estamos insatisfeitos, todos sabem o que pensamos, vamos falar na hora devida, tem coisas que não estão certas, atenção para a hierarquia, logo mais diremos tudo, podem esperar, assim que passar o jogo com o Paraguai a gente faz declaração, vamos ali fazer um manifesto e já voltamos.

E voltaram com um "não-manifesto".

"Ah, mas quem esperava qualquer coisa diferente desse elenco é ingênuo". Sem dúvida. Mas prefiro a ingenuidade ao cinismo porque dentro da ingenuidade existe espaço para sonhar e dentro do cinismo existe apenas a indiferença.

Não tem nada em mim que seja indiferente ao que aconteceu quando o jogo contra o Paraguai acabou. Me causa revolta, ira e cólera que um bando de homens com acesso à informação se acovarde de forma absoluta diante da chance de nos ajudar a sair dessa situação.

A covardia é a pedra fundamental sobre a qual todo o babaca é erguido. Quando as aparências derretem, é o acovardamento que fica - soberano, imponente, imperial.

Não interessa mais saber o que esses homens farão em campo. A camisa da seleção representa sim uma nação que, a despeito de gostar ou não de futebol, está sendo exterminada. A voz que esses homens têm, cujo alcance é total, poderia ter sido usada para nos ajudar a respirar. Não foi. E muito pelo contrário. Vai colaborar para nos sufocar ainda mais.

O não-manifesto é a maior vergonha já protagonizada por esse time. Esqueçam o 7x1. O time de Tite conseguiu superá-lo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL