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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para quem joga a Seleção Brasileira?

Paolo Rossi domina bola entre Oscar e Falcão no jogo em que a Itália eliminou a seleção brasileira da Copa do Mundo da Espanha em 1982. A Itália venceu o Brasil por 3x2, os três gols de Rossi - Jorge Araújo/Folhapress
Paolo Rossi domina bola entre Oscar e Falcão no jogo em que a Itália eliminou a seleção brasileira da Copa do Mundo da Espanha em 1982. A Itália venceu o Brasil por 3x2, os três gols de Rossi Imagem: Jorge Araújo/Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

08/06/2021 14h27

Eu tinha 14 anos quando a seleção brasileira de futebol masculino foi eliminada da Copa do Mundo pela Itália. Até hoje esse é um dos dias mais tristes da minha vida. Não fazia sentido, para mim, que um time que era reconhecido como o melhor do mundo, e um dos melhores da história, saísse do torneio. Lembro de ficar em frente à TV esperando alguma mudança no resultado: alguém gritar que era brincadeira, que o Brasil seguiria na Copa, que não se tira do torneio uma equipe como aquela. Mas não aconteceu nada parecido e eu precisei encontrar em mim um lugar para acolher a dor.

Com aquela derrota eu entendi que perder nem sempre é motivo de vergonha. Podemos perder de forma grandiosa, essa é a verdade. Aquele time maravilhoso me representou como poucos na vida até hoje. Nos pés, nos dribles, nos passes, na ocupação criativa dos espaços e até na luta política da qual alguns não fugiam, eu me reconhecia, eu me enxergava, eu me construía.

Havia uma música que saía do jogo da seleção que me fazia sentir orgulho de dizer: essa é a seleção do meu país, essa música é minha também. Esse jogo aí que vocês estão assistindo embasbacados é o jogo que a gente inventou. Tem drible, tem inovação, tem um bocado de técnica, tem encantamento. É coisa nossa.

Em 1986, voltei a sentir a mesma dor, mas dessa vez eu sabia que sobreviveria. É uma das coisas que o sofrimento faz: cria um espaço interior onde a gente pode se recolher sabendo que uma hora voltaremos a existir.

Poderia seguir nessa linha do tempo falando das seleções que se seguiram - e nunca mais encantaram - mas quero mesmo é falar dessa seleção de Tite. Para quem joga hoje a seleção brasileira?

Para o povo é que não é. Sabe como fica fácil perceber? Porque o povo não mais se reconhece nessa equipe. Claro que a maioria de nós aplaude a vitória e até torce por uma. Mas torcemos como, talvez, fizéssemos como quem assiste a um jogo e se propõe a torcer por um time que não é exatamente o seu, mas que, naquele momento, tem a sua simpatia. Sem paixão, sem emoção, sem empolgação. Que é, na real, como joga esse time. Um time correto, bem montado, bem treinado, técnico, mas sem vida, sem pulsação, sem coração.

E até aqui eu falei apenas da seleção que existe quando o juiz apita o começo do jogo. Mas uma seleção nacional é mais do que isso e existe para além das quatro linhas. Uma seleção é símbolo de construção de imaginário social. É ferramenta aglutinadora de identidades e significados. É uma instituição através da qual podemos, juntos, nos reconhecer enquanto comunidade, enquanto nação.

Mas que nação é essa? O país que existe nas frestas, como fala o professor Luiz Antonio Simas? Esse dos terreiros, das benzedeiras, das escolas de samba, do Carnaval, do chorinho? Ou o país das instituições, da violência estatal, do conservadorismo, da tradição, da família e da propriedade?

A resposta nem precisa ser dada.

Essa seleção é a seleção daqueles homens que, em 2016, ocuparam nosso parlamento para, enrolados na bandeira nacional, votar fora uma presidenta legítima aos berros de "em nome da minha família e de Deus". É para essas criaturas deploráveis que joga hoje a seleção que não é mais do Brasil, mas da CBF e de seus patrocinadores - que podemos, apenas supor, estão alinhados aos valores da CBF porque, caso contrário, teriam pulado fora há tempos.

A seleção joga por poder e para o poder.

Se essa seleção jogasse para a população, para Marias e Clarices, para Joãos e Josés, ela não entaria em campo na Copa América. Porque são Marias, Clarices, Joãos e Josés que estão morrendo sufocados por conta de um planejamento macabro de extermínio feito pelo governo federal. Um líder que decide não comprar vacinas, que incentiva aglomerações e faz propaganda de remédio ineficaz é um líder com projeto genocida. Como jogar a Copa América em território nacional diante desse cenário?

Ao optar por não entrar em campo na Copa América, a seleção imediatamente voltaria a se conectar ao Brasil das frestas, que é o Brasil verdadeiramente real. Acho que todos se sentiriam representados por ela - salvo aqueles 20% que ainda conseguem defender um genocida.

A cada dia que passa, a seleção brasileira de futebol masculino se aliena de todos e de todas nós. A camisa amarela já foi, e agora o pouco que restava também se vai.

Para quem joga essa seleção, portanto? Justamente para o Brasil que precisa morrer para que possamos renascer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL