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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Manifesto pela extinção da CBF

O presidente Jair Bolsonaro exibe uma camisa da seleção brasileira ao lado de Neymar, do presidente da CBF, Rogério Caboclo, e do general Augusto Heleno, chefe do GSI - Divulgação
O presidente Jair Bolsonaro exibe uma camisa da seleção brasileira ao lado de Neymar, do presidente da CBF, Rogério Caboclo, e do general Augusto Heleno, chefe do GSI Imagem: Divulgação
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

07/06/2021 10h46

No Brasil, o futebol é uma instituição. Com isso quero dizer que o futebol tem, além da capacidade de nos constituir enquanto sujeitos, a potência de construir e mobilizar desejos, sonhos e modos de existir. Goste-se ou não do jogo, vivemos em um país em que o futebol, por ser uma instituição, tem impacto sobre toda a sociedade.

Emprestando uma ideia do professor e escritor Vladimir Safatle, o futebol coloca em movimento um circuito de afetos que nos ajuda a lidar com sentimentos como o medo, o sofrimento e a esperança. Esse jogo de afecções carrega enormes potencialidades sociais e a capacidade de capturar nossas subjetividades - e, por isso, precisa ser organizado com responsabilidade.

A CBF, a entidade que administra essa instituição no Brasil, é uma associação privada que há muitos anos lida com acusações de desvios e corrupções. Agora, entra nesse caldeirão de delinquências, acusações de assédio sexual e moral contra o homem que, até ontem, era o presidente da associação. Ele foi afastado, mas uma rápida olhada nos possíveis sucessores indica que nada vai de fato ser alterado na forma como a CBF é gerida.

A CBF tem sido presidida por um mesmo tipo de ser humano desde a sua criação: homens brancos, poderosos, autoritários, com cacoete despóticos. Muda o nome do presidente, troca-se a placa na entrada da sala, mas não muda nada além disso. Afasta-se um por desvios, vem outro igual. Não há, entre os diretores da associação, nenhum tipo de representatividade social e, podemos também argumentar, nenhum profundo amor pelo futebol. O que essa gente realmente ama é o poder.

Era apenas uma questão de tempo para que o futebol, através de uma instituição moralmente falida como a CBF, virasse alvo de um governo fascista administrado sob a lógica das milícias. E para aqueles que aqui começam a criticar o uso da palavra "fascista", como se fosse um exagero, é preciso entender que fascismo não é apenas um fenômeno histórico localizado no passado. O fascismo é um modo de organizar a vida social a partir da mobilização do medo, da exclusão e do extermínio.

O fascismo é uma tecnologia de poder que faz uso de um líder aparentemente apaspalhado que conta com o apoio de uma certa parcela da elite financeira e da imprensa para esconder a violência de seu discurso com o "ele é maluco, é psicopata, é uma exceção, não vai fazer o que fala, relaxa". Uma liderança fascista não tem nada de burra nem de doente. Ela cumpre uma agenda, e é uma agenda que nossos antepassados, que já enfrentaram fascismos antes da gente, deixaram escrita com começo, meio e fim, mas que estamos nos recusando a ler.

Nos últimos dias, o que temos assistido bem diante de nossos olhos é a tentativa de se aparelhar politicamente a seleção brasileira. É através desse tipo de aparelhamento, ensina o professor e jurista Silvio Almeida, que o fascismo se organiza: tomando para si as instituições porque, ao dominar as instituições, domina-se os processos de produção da consciência e dos sentimentos. A captura do imaginário simbólico que seleção brasileira representa é uma parte importante do projeto fascista-liberal do Bolsonarismo. Um projeto que, para vingar, precisa fazer enterrar a cultura, a arte e a poesia. O fascismo, enquanto máquina de produção de desejos, produz e distribui um desejo acima de todos os demais: o desejo de morte.

Por tudo isso, precisamos disputar a seleção brasileira. Como fazer isso? Pressionar os patrocinadores talvez seja o caminho mais curto. Temos que perguntar como algumas empresas aceitam vincular suas marcas a uma associação tão indecente, autoritária e imoral como a CBF. Se o interesse dessas marcas é pelo futebol brasileiro, então elas deveriam concordar que, diante dos serviços prestados em nome da destruição da imagem do nosso futebol, precisaríamos extinguir a CBF e começar tudo outra vez, criando uma confederação que tenha, para começar, a cara de todas as pessoas que fazem esse país, que dão vida ao futebol, que jogam, torcem, sofrem e sonham.

Essas são, aliás, as pessoas que o genocídio promovido pelo Bolsonarismo está matando. Ao optar por jogar a Copa América no Brasil, a seleção brasileira faz parceria com o extermínio bolsonarista. É uma nova, e talvez irrecuperável, mancha de vergonha nessa camisa que já tinha sido tão desmoralizada. Quando tudo passar, precisaremos enterrar a camisa amarela. Pensar o futebol a partir do zero: nova camisa, novas cores, novos valores.

Bastaria um mínimo de consciência humanitária para que a seleção optasse por não entrar em campo. Sediar uma Copa em meio a um pandemicídio é uma aberração, uma delinquência. Não importa saber quanto dinheiro vai ser perdido se a Copa América não acontecer; pensar assim é ajudar a naturalizar a aberração. Durante uma pandemia, a lógica não é o dinheiro, a lógica são as vidas, as dignidades, o entendimento de que só sairemos disso juntos.

O momento não é para festa. Estamos morrendo, perdendo amores, apavorados, desamparados, desesperançosos. UTIs lotadas, médicos e enfermeiros extenuados, uma terceira onda dando as caras. Precisamos de pão, de saúde pública e de solidariedade; não de uma Copa.

Se esse presidente tivesse sido tão ágil para comprar vacinas quanto foi para trazer para cá a Copa que ninguém quis, estaríamos vacinados em percentuais satisfatórios e poderíamos, quem sabe, sediar o evento. Mas ele se recusou a comprar as vacinas porque a negligência fazia parte de um planejamento macabro de extermínio. Era hora de a seleção se colocar ao lado daqueles e daquelas para quem eles jogam - ou deveriam jogar: a população brasileira, essa mesma que está sendo exterminada por fome, por bala e por vírus.

Podem enterrar essa camisa amarela. O futebol brasileiro morreu e vai precisar ser refundado quando isso passar.

Extinguir a CBF é um começo para essa refundação. Mas isso talvez tenha que ficar para daqui a pouco. Porque nesse exato momento importa lutar para que o futebol brasileiro não seja aparelhado politicamente pelo Bolsonarismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL