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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O futebol masculino é a última fronteira na luta contra a homofobia

Retrato do jogador inglês Justin Fashanu do Norwich City - Allsport UK /Getty Images
Retrato do jogador inglês Justin Fashanu do Norwich City Imagem: Allsport UK /Getty Images
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

17/05/2021 15h19

Justin Fashanu foi, até onde apurei, o primeiro jogador profissional de futebol a se assumir gay na história - e talvez o único que fez isso enquanto jogava. Inglês, negro, talentoso, jogou pelo City, Newcastle e West Ham. Fashanu teve a coragem de falar sobre sua sexualidade ao jornal The Sun numa entrevista dada em outubro de 1990.

Ele contou que decidiu se assumir quando soube do suicídio de um jovem gay de 17 anos. Diante da notícia, tomou a decisão de parar de se esconder. Queria ajudar outros jovens e atuar em nome do fim da homofobia no futebol, na Inglaterra e no mundo.

Fashanu passou a ser insultado pela torcida em campo, foi abandonado por seu irmão John, também jogador, e oito anos depois cometeu suicidio.

Depois dele, não temos mais notícias de jogadores que se assumiram gay enquanto ainda jogavam. Sabemos de alguns que, depois de pararem, revelaram publicamente sua homossexualidade.

Entre as mulheres, a homossexualidade sempre foi internamente aceita, ainda que fossem poucas as jogadoras que se assumissem publicamente. Medo de serem rejeitadas, medo de perderem contratos de patrocínio, medo de serem agredidas na rua. Se assumir é um ato de extrema coragem num mundo que todos os dias diz que LGBTQs devem ser mortos e excluídos.

Mas o cenário está mudando e a maior jogadora da história do futebol feminino, a nossa Marta, hoje é abertamente lésbica.

O futebol profissional masculino talvez seja a última fronteira de lutas como a anti-machista e a anti-Lgbtfóbica. Trata-se de um universo dominado por homens brancos, ricos e que se orgulham bastante de sua heterossexualidade. FIFA, Conmebol, CBF e outras entidades organizadoras do jogo, sempre aliadas aos interesses mais sombrios de nossa sociedade, precisarão de muitos anos para incentivarem jogadores profissionais a saírem do armário.

Uma coisa é entrar em campo com faixas que peçam paz, tolerância e o fim da Lgbtfobia - e talvez já seja um primeiro passo -, mas outra completamente diferente é incentivar seus membros, de dirigentes a jogadores, a se assumirem.

É claro que no futebol masculino, que não existe separado do mundo, existem muitos jogadores gays atuando. Mas para que uma pessoa LGBTQ saia publicamente do armário é preciso que haja toda uma estrutura de suporte e de amparo que envolve clubes, dirigentes, torcida e imprensa. Num mundo que valoriza a masculinidade acima de tudo, e entende por masculinidade jamais se deixar atravessar, nem todos têm a petulância e a valentia de Justin Fashanu.

Fashanu foi um homem corajoso que sonhou e agiu em nome de um mundo mais justo. Que num futuro próximo pessoas como ele sejam reverenciadas por sua dignidade, decência e coragem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL