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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O dia em que Raí calou a Fiel e mostrou que a arte se impõe à rivalidade

Raí, do São Paulo, comemora gol contra o Corinthians, no Paulista de 1991 - Arquivo/Folhapress
Raí, do São Paulo, comemora gol contra o Corinthians, no Paulista de 1991 Imagem: Arquivo/Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

15/05/2021 15h06

No futebol, me interessam as miudezas mais do que as grandezas. Essa história me foi narrada por Raí quando, com Soninha, estávamos escrevendo o livro "Para ser jogador de futebol".

Eu queria que ele me contasse sobre algum momento dentro de campo que ele levaria para sempre com ele, mas que poucos de nós sabíamos. E ele contou.

Era um São Paulo e Corinthians, já não lembro mais o ano (a história está detalhada no livro), e o estádio estava lotado e dividido: torcida do São Paulo de um lado, do Corinthians do outro.

A torcida do Corinthians fazia um carnaval e o som era colossal quando uma bola espirrou para a lateral e ia saindo devagar. O arremesso seria corintiano e Raí correu para evitar a saída, marcado de perto por dois corintianos.

A torcida alvinegra, em convulsão, cresceu vendo a disputa, a princípio irrelevante. Era afinal, um lateral no meio de campo. Raí correu, deixou a bola quicar, e deu um chapéu nos dois corintianos, saindo limpo e livre do outro lado com a bola no chão.

O que ele lembra daquele momento - e o que eu lembro da história que ele me contou - foi a sensação de calar uma torcida inteira. Da convulsão ao silêncio. Quando executou sua arte, e deixou no vazio dois marcadores, a arquibancada em transe silenciou e Raí pôde, ainda que por uma fração de segundos, ver alguns olhares de perplexidade e - até - de admiração. A arte, quando se apresenta soberana, se impõe à rivalidade.

Deve mesmo ser de uma potência enorme você levantar a massa; mas, de um jeito também potente, deve ser memorável a sensação de silenciar o rival e enxergar nele a reverência que o momento pede.

Não lembro do resultado do jogo, nem muito mais sobre esse episódio. Mas lembro que Raí sempre foi o craque eu odiava amar.

No dia 15 de maio ele faz aniversário: 56 anos de um dos maiores meias que nosso futebol já viu jogar. Parabéns, Raí.

Para terminar, a todos aqueles que, como eu, dão valor as coisas miudinhas dessa vida, trecho de um poema de Manoel de Barros:

"A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL