PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Som de bombas no jogo do Atlético-MG diz que vivemos o fim do mundo

Jogadores de Atlético e America de Cali sofrem com efeitos de gás lacrimogêneo  em jogo da Libertadores - Ricardo Maldonado-Pool/Getty Images
Jogadores de Atlético e America de Cali sofrem com efeitos de gás lacrimogêneo em jogo da Libertadores Imagem: Ricardo Maldonado-Pool/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

14/05/2021 14h18

Assisti ao jogo entre Atlético e América pela Libertadores como talvez alguns passageiros do Titanic tenham assistido à orquestra tocando enquanto o navio afundava.

Acho que todos e todas os que estão minimamente despertos e despertas já perceberam que estamos enfrentando o fim de um mundo. As bombas que fizeram a sonoplastia do jogo em questão deixaram isso cristalinamente evidente.

Vivemos uma Guerra e é preciso começar a encarar a realidade da forma como ela é.

Os manifestantes das ruas de Cali, na Colômbia, não estão lutando uma luta diferente daquela travada pela população da Palestina, pelo povo do Jacarezinho, pelos parentes de George Floyd, pelos refugiados cujos corpos são aprisionados, abusados e dilacerados, seja pela ação de governos nacionalistas ou pela ação do colonialismo que há mais de 500 anos nos devora e devasta.

O jogo deveria ter sido suspenso, se não por outros motivos, pelo fato de poupar atletas dos dois times - trabalhadores assalariados - de trabalhar sob o efeito de gases tóxicos.

Mas o que é a Conmebol, afinal? Uma corporação. Uma empresa cujos interesses se opõem aos interesses dos manifestantes das ruas de Cali - ou de Gaza, de Alepo, do Jacarezinho.

A bagunça na Colômbia é resultado da raiva da população contra medidas econômicas de um governo de extrema direita que quer, mais uma vez, fazer valer leis que beneficiam os muito ricos e as corporações em detrimento da saúde e da qualidade de vida da vasta maioria população.

Isso precisa ser dito, precisa ser anunciado. Fazemos pouco se apenas "lamentamos o ocorrido" ou se nos limitamos a dizer coisas como "confronto entre polícia e manifestantes". O que temos visto não são confrontos. Confronto é o Galo jogar contra o America. Quando uma polícia armada como exército luta contra uma população armada com pedras devemos chamar isso de massacre, de extermínio.

As polícias estão aí para servir e proteger, diz o bom senso. Sim, verdade. Mas uma pergunta deve vir dessa máxima: servir e proteger a quem? Uma polícia que se equipa como um exército para massacrar a própria população deixa nítido que o inimigo somos você e eu. Então a que interesses essa polícia militarizada serve? Quem ela protege? A resposta envolve bilionários e suas corporações - e a FIFA, a Conmebol e a CBF não estão no nosso time nesse jogo do viver e do morrer.

O futebol pode ser potência revigorante ou buraco alienante, e somos nós que precisamos decidir o que queremos dele. O jogo não existe num tempo-espaço suspenso. Ele é uma dimensão do que experimentamos enquanto sociedade e, dessa forma, reflete angustias, relações, medos, modos de vida. Por força de interesses sombrios haverá sempre a tendência a tentar fazer com que consumamos o futebol para nos alienar, e é fundamental que estejamos atentos e fortes para não nos deixar levar.

O momento é extraordinário e exige o posicionamento de todos e de todas. As torcidas dos principais times colombianos se colocaram contra a violência policial e contra a política econômica do governo local. Borja, atacante do Palmeiras emprestado ao Junior Barranquila, e Higuita, o inesquecível goleiro, também se posicionaram. Estamos em guerra, uma guerra que pode ser a última que lutamos, e aqueles e aquelas que calam e silenciam tomam o lado do opressor.

"Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando à miséria, fazendo trabalhar até arrebentar, impelindo ao suicídio, enviando para a guerra. Só a primeira é proibida por nosso Estado", Bertold Brecht

Para não dizer que evitei falar de flores: o time do Galo, que começa a nascer organizado pela genialidade de Nacho Fernandez, é um time que pode, através do encantamento, ajudar a resgatar o torcedor e a torcedora desse buraco emocional em que nos metemos. A arte salva porque oferece esperança onde antes só havia desespero.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL