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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Giba, Chu, esporte, conquistas e julgamentos morais

Marta e Cristiane na decisão do futebol feminino no Pan Rio 2007 - Joel Auerbach/Getty Images
Marta e Cristiane na decisão do futebol feminino no Pan Rio 2007 Imagem: Joel Auerbach/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

12/05/2021 14h15

Tem um grito de rua em manifestação que diz o seguinte: "As bi, as gay, as trava e as sapatão: tá tudo organizada pra fazer revolução". É um dos gritos que mais me faz pular. Ele fala sobre mim, claro, mas também sobre você - mesmo que você não seja nem bi, nem gay, nem trava e nem, como eu, sapatão.

Se a gente pensar que revolução é um evento desses que pode até ser televisionado, então não teremos entendido o que estamos vivendo. Para quem pensa assim, escutar declarações LGBTfóbicas como as recentemente cometidas pelo ex-atleta Giba e pela atleta Chu, serão derrotas.

Eu não penso assim.

Pra mim a revolução é um processo. E um processo lento, muitas vezes cheio de dor, de sofrimento, de lágrimas e de derrotas. E, em outras tantas, de festa, de alegria, de abraços e de vitórias. Sob essa ótica, Giba e Chu são canais de divulgação de ideias velhas, caretas, covardes e repressoras, que eles mesmos sabem que estão morrendo - e até por isso se sentem à vontade para estrebuchar tanto preconceito.

Os movimentos negros e LGBTQs acumulam conquistas ao longo dos anos, e se a roda da emancipação dá umas travadas aqui e ali a verdade é que ela não para de girar para frente.

Giba e Chu, com suas declarações cheias de rancor, tentam dizer que estamos no caminho errado.

Para a atleta palmeirense, Paulo Gustavo não foi para o céu porque era um homem gay e umbandista. Se for esse o caso, talvez queiramos ir todos para onde quer que o ator e humorista tenha ido. Nas palavras de Mark Twain: quero o céu pelo clima e o inferno pelas companhias.

Em respeito ao futebol feminino, que oferece a Chu uma carreira, a atleta deveria se desculpar não apenas em palavras, mas em ações.

O futebol feminino só existe porque mulheres lésbicas ousaram lutar por ele. Lutar, primeiro, para que ele fosse legalizado (ele já foi proibido por lei no Brasil), e depois para que fosse legitimado. Não fossem as sapatão não haveria o futebol feminino como ele existe hoje - e Chu, provavelmente, não teria essa carreira. Então, além de preconceituosa a declaração dela é desleal ao esporte que ela pratica.

Ao contrário das religiões cristãs, a Umbanda não vê o mundo pela chave do pecado e dos pecadores e para uma umbandista fica difícil entender essa visão dicotômica de céu e inferno. A Umbanda está mais preocupada com a vida antes da morte do que com a vida depois da morte, e eu me identifico com essa filosofia de vida. Fui educada no catolicismo, que nunca pratiquei, mas tenho buscando conhecimento a respeito de outras religiões e filosofias.

Todo preconceito é filho da ignorância, e estamos sendo convidados e convidadas a aprender para, assim, nos despir dessa pele de ódio e de julgamentos morais. Todos os dias recebemos esse convite.

A encruzilhada, ensina o professor Silvio Almeida, é boa. É através dela que nos investimos de potência para escolher caminhos, para construir futuros.

O cineasta Vittório De Sica dizia uma coisa mais ou menos assim: todo julgamento moral é 2% julgamento, 48% moral e 50% inveja.

O que nos leva a Giba e a Eduardo Bolsonaro.

A entrevista em que o ex-atleta do vôlei e atual dirigente esportivo corta a bola levantada pelo filho do presidente é uma aula de LGBTfobia. Os dois - homens brancos profundamente incomodados com nossas vitórias revolucionárias em nome de um mundo justo e livre - passam alguns minutos falando asneiras, equívocos e intolerâncias.

Mais do que os erros que cometem em seus julgamentos (que carregam confissões), é bom testemunhar o medo e o rancor na forma como cometeram as palavras na ocasião do encontro.

Uma atleta trans é uma atleta. Uma pessoa trans é aquela que se identifica com o gênero oposto. Para cruzar a ponte para o lado de lá qualquer pessoa trans precisa enfrentar universos de transformações - internas e externas - que passam por verbalizar o que sentem, ajustar hormônios ao gênero pelo qual se reconhecem e, muitas vezes, encarar cirurgias. É uma via sacra que exige, acima de tudo, coragem.

É de fato preciso muita coragem para encarar de peito aberto uma sociedade que todos os dias diz que não podemos ser quem somos.

O ódio que alguns manifestam é justamente contra essa coragem. A base de suas vidas é, aliás, a covardia. Uma covardia tão escancarada que nos faz ser o país que mais consome pornografia LGBTQ no mundo e, ao mesmo tempo, o que mais mata a população LGBTQ.

A crise é de desejo, essa é a verdade. E bastaria coragem para que, reconhecidos e ajustados os desejos, conseguíssemos fazer o que pediu Jesus: amar uns aos outros. Ama o próximo como a si mesmo ou, como prefere o mitólogo Joseph Campbell: ama o próximo porque é tu mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL