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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O machismo que se esconde em justificativas econômicas

Carli Lloyd, atual melhor do mundo, faz o passe observada por adversária da Nova Zelândia - GUSTAVO ANDRADE/AFP/Getty Images
Carli Lloyd, atual melhor do mundo, faz o passe observada por adversária da Nova Zelândia Imagem: GUSTAVO ANDRADE/AFP/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

04/05/2021 14h39

Ninguém que ver esportes femininos? Números indicam o contrário. Uma extensa matéria na revista norte-americana New Yorker aborda em detelhas a história de um time de futebol feminino nos Estados Unidos - o Sky Blue FC - e as transformações pelas quais ele vem passando.

O texto, que pode ser lido na íntegra aqui, começa mostrando como o futebol feminino é maltratado por lá, como as condições de trabalho das atletas do Sky Blue eram absolutamente precárias e como as duas primeiras ligas de futebol feminino nos Estados Unidos faliram terrivelmente.

A parte mais interessante trata do sexismo que se esconde em justificativas e alegações disfarçadas de economia. O senso comum dos negócios que envolvem os esportes diz que ninguém quer ver mulher jogando profissionalmente e, por isso, esportes femininos não interessam como negócio. Argumentos como esse justificariam que entre 3 e 5% do tempo dos programas esportivos na TV dedicassem espaço ao esporte feminino - número real.

A lógica deveria ser a oposta: o hábito de ver esportes pela TV é uma construção e o futebol masculino, há décadas, tem a audiência incentivada pela mídia de massa, assim como os demais esportes masculinos. Para que esportes femininos ganhem audiência, e com ela investimentos, eles precisariam ser merecedores dos mesmos incentivos, dos mesmos espaços, do mesmo tempo em TV e demais mídias. Ou talvez nem precisem de tantos incentivos, apenas de algum.

No dia 27 de junho de 2020, com as demais ligas paradas por causa da pandemia, meio milhão de telespectadores assistiu na CBS, uma rede de TV aberta, ao primeiro jogo de um torneio de futebol profissional feminino organizado para ser disputado sem público durante a pandemia. No final de julho, já com todas as ligas de volta ao trabalho, o número chegou a 650 mil.

Enquanto as ligas masculinas de futebol, futebol americano e basquete vão perdendo audiência, a liga feminina de futebol viu sua audiência crescer 493% em anos recentes. Não seria, portanto, exagerado dizer que a ausência de esportes femininos na TV não é consequência do desinteresse de público mas sim causada por machismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL