PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Times não podem ter donos

Torcedores do Manchester United invadem gramado do Estádio Old Trafford - Oli Scarff/AFP
Torcedores do Manchester United invadem gramado do Estádio Old Trafford Imagem: Oli Scarff/AFP
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

02/05/2021 15h31

Quando no domingo 2 de maio torcedores do Manchester United invadiram o campo do clube para protestar contra aqueles que a imprensa tem chamado (corretamente) de donos do time - a família Glazer - eles falavam por muitos de nós.

Os Glazers fizeram fortuna através do setor imobiliário norte-americano e hoje são proprietários do Manchester United e do Tampa Bay, time de futebol americano. São uma dessas famílias de bilionários que mandam no mundo, e que decidem o destino de nossas vidas. O protesto dos torcedores do Manchester United não pode, portanto, ser separado das condições econômicas, políticas e sociais dentro das quais vivemos atualmente.

Um mundo no qual uma dúzia de famílias decide sobre legislações, sobre taxações, sobre produção e distribuição de mercadorias. Um mundo que não se importa em seguir furando o solo em busca de recursos finitos, nem de queimar florestas para continuar produzindo e reproduzindo o bilionário universo do agro-negócio, cujo desenvolvimento só pode se dar às custas do planeta e de nossa existência nele.

Essas famílias, que já não sabem mais o que fazer com tanto acumulo de riqueza, acharam por bem sair comprando clubes de futebol - e o Brasil logo logo estará na lista de investimento dessa turma.

Não pode ser por acaso que atualmente os maiores clubes do futebol brasileiro apresentam suas dívidas com um certo orgulho até - uma das leis mais básicas do capitalismo é "sucateie para poder vender mais barato". Dessa forma as "comissões" pela venda podem correr livres, leves e soltas por fora da negociação oficial.

É assim que o sistema opera e isso não é nenhum segredo. Temos um excelente exemplo dessa técnica com a "Privataria Tucana", quando muitas de nossas estatais, já devidamente sucateadas, foram vendidas por um preço que, para pegar leve, chamaremos de ridículos.

Ao que parece, o futebol brasileiro se prepara para deixar que os bilionários do mundo comprem nossos times.

Mas um clube não pode ter qualquer outro dono que não seja o seu torcedor. Um time de futebol não deve, não pode, existir para dar lucro. Um time de futebol deveria existir para nos fazer sentir parte de uma mesma coisa. Para que possamos, através dele, construir nossas subjetividades. Para que sejamos capazes de encontrar no jogo uma forma de arte, e não falo aqui de arte no sentido estético apenas, mas da arte que nos faz entender, sinestesicamente, o que é a vida e por que estamos aqui.

O futebol está sendo colonizado por esse capital privado de origem duvidosa, que se acumula indecentemente, fruto de séculos de colonialismos, escravizações, roubos, explorações. Os torcedores do Manchester United falam por mim, falam por todos e todas aqueles e aquelas que ainda esperam que o futebol nos resgate e nos eleve a um lugar de mais significado.

O único dono possível para qualquer time chama-se torcedor e torcedora. A lógica da propriedade, a única coisa que o Capitalismo consegue tratar como divina, deve ser eliminada do futebol, um jogo que fala das coisas que nos são comuns, que trata de solidariedade, de comunidade, de colaboração. A única competição possível é de um time contra outro dentro do campo e em nome de uma rivalidade que precisa ser saudável porque só assim pode funcionar como metáfora das guerras que precisamos parar de lutar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL