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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A ingrata tarefa de secar Flamengo e Palmeiras

O jogador Patrick de Paula, da SE Palmeiras, em jogo contra a equipe do CARE Independiente Del Valle, durante partida válida pela fase de grupos, da Copa Libertadores, na arena Allianz Parque.  - Cesar Greco / Palmeiras
O jogador Patrick de Paula, da SE Palmeiras, em jogo contra a equipe do CARE Independiente Del Valle, durante partida válida pela fase de grupos, da Copa Libertadores, na arena Allianz Parque. Imagem: Cesar Greco / Palmeiras
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

28/04/2021 15h13

Todo mundo que tem um time de coração tem também um rival de fígado. Eu tenho dois e eles são, desgraçadamente, Flamengo e Palmeiras. Então vocês podem imaginar que a fase não é boa.

Ontem teve rodada dupla de secação e foi com extrema tristeza que precisei ver duas goleadas. Pior do que as goleadas: ter que testemunhar dois times fortes, ofensivos, entrosados, alegres. E, como se não fosse tragédia suficiente, ser ofendida por golaços. Pedro, meu querido, precisava daquilo? Por quê? Pra quê?

A única notícia boa é saber que o futebol me preparou para esse inferno.

Tive que crescer vendo Zico e Junior, com a ajuda de Tita, Adílio, Rondinelli e de outros demônios, arrasarem o Fluminense. Teve aquele Palmeiras infernal de Luxemburgo, com aquele goleiro que não deixava a bola entrar, e o Palmeiras de Scollari, que me arrancou o sorriso do rosto.

Mas como o eu é um espaço fragmentado, contraditório e complexo, existe em mim um lugar onde a admiração pelo rival se faz presente.

Um lugar onde a paixão pela arte que faz parte do jogo pulsa mais forte. Um lugar onde mora a esperança de que Flamengo e Palmeiras possam inspirar o futebol brasileiro a voltar para casa, a se deixar impactar pelo Brasil das frestas, pelo Brasil do samba, do chorinho, do Carnaval. O Brasil dos terreiros, das macumbeiras, das festas de rua. O Brasil de Marielle, de Carolina Maria de Jesus, de Lelia Gonzalez. O Brasil de Joel Rufino dos Santos, de Silvio Almeida, de Barbosa, de Jones Manoel, de Djamila Ribeiro, de Pelé, Socrates e Cafuringa.

O Brasil daqueles que insistem em resistir à dominação imposta por ideias velhas, caretas, conservadoras e covardes de onde nasceram esquemas de jogos retrancados, violentos, apequenados.

O Brasil que eu quero colocar pra jogo é o da troca de passes rápidos, das triangulações improváveis, dos dribles inacreditáveis, da ousadia, da coragem, da irreverência, dos Pedros, dos Patrick de Paula, dos Ronys, dos Gabis, das Martas, das Formigas, das Cristianes. Um Brasil encantado que se encontra nas encruzilhadas para criar o impossível enquanto dança e dribla. Um Brasil que tenta se descolonizar e se humanizar a cada gol, a cada lançamento, a cada drible, a cada grito.

Para todos os efeitos, seguirei secando. Mas, no silêncio das brechas, me permitirei admirar.