PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estaduais: credo, que delícia

Conteúdo exclusivo para assinantes
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

25/04/2021 19h49

Quando eu era pequena o título de um estadual valia muita coisa. Lembro do escândalo que fiz para minha mãe me levar ao Morumbi no ultimo jogo entre Corinthians e Ponte Preta em 77. Lembro do estádio completamente lotado, um torcedor encostado ao corpo do outro sem espaço para caber muita coisa entre as peles. Lembro do barulho, do cimento que balançava e me fazia sentir uma mistura de medo e excitação. Eu era muito pequena e até hoje não sei como minha mãe teve a ousadia de me arrastar para o Morumbi mesmo com meu pai berrando que iríamos ser pisoteadas.

Não fomos pisoteadas e aquela foi uma das sensações mais sublimes da minha vida. Nem tanto pelo resultado, mas pelos sentimentos e emoções que inaugurei em mim.

Lembro de ver com meu pai o gol de barriga de Renato Gaúcho contra o Flamengo em 1995, e lembro do pranto e dos berros dele por causa daquele milagre. Se fechar os olhos sinto com absurda verdade o abraço de meu pai em mim, o melhor abraço do mundo.

Lembro do gol de Ricardinho contra o Santos nas semis de 2001 e de como não havia maneira de conter tantas sensações, tanta euforia.

Lembro também de derrotas trágicas, da tristeza que se seguia a um título perdido, a uma eliminação de estadual. Quando era pequena me trancava no banheiro para chorar. Meus pais ficavam aflitos, mas eu precisava de um canto para ficar quieta, sem acesso ao olhar de piedade que minha mãe me lançava. Tudo piorava quando ela dizia coisas como "para com isso, é só um jogo". Nessa hora eu pensava que nunca mais sairia daquele banheiro.

Conforme o mundo foi se globalizando o futebol foi perdendo suas regionalidades e ingenuidades. Hoje, buscamos desesperadamente construir rivalidades interestaduais e intercontinentais que façam frente a Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Atlético e Cruzeiro. Mas a tarefa é dura porque se por um lado parece que não temos como lutar contra a globalização, por outro uma rivalidade de respeito não se constrói da noite para o dia.

Os que advogam pelo fim dos estaduais dizem que eles não valem mais nada. O que importa agora é conquistar o mundo. Nem mesmo a conquista da América tem a graça de antes. Quem está assim tão preocupado com a América Latina, afinal? Queremos vencer os grandes da Europa, os times dos oligarcas do petróleo. Queremos ter um mundial pelo menos.

E, claro, o que vale agora é quanto se paga por cada rodada de cada competição, números que são oferecidos durante as transmissões das partidas. Um dinheirão. Estamos no universo dos times administrados como empresas, geridos para dar lucro para seus acionistas. Dentro dessa realidade, qual a importância de um Estadual?

Claro que quando um time como o Corinthians vence o bilionário Chelsea e a gente vê a faixa "The favela is here" ("A favela está aqui") ser enfiada na cara deles tem uma coisa na gente, mesmo naqueles que como eu foram criados em condomínios de classe média-alta, que pulsa mais viva e mais apaixonada. Toma!

Acho que os estaduais ainda guardam em sua alma alguma coisa da nossa essência. Times pequenos se preparam o ano todo, a gente vê um tipo de entrega desses elencos que talvez já tenhamos perdido de vista, e a rivalidade entre os grandes é pintada em novas cores. É nos estaduais que temos a chance de resgatar alguma coisa da várzea que é nossa raiz, algum cimento da fundação da pureza do que o jogo um dia teve. As tentativas de salvar os Estaduais chegam, no máximo, a novas formas de disputas que envolvem cada ano um formato diferente: confrontos entre grupos, confrontos dentro dos grupos, turno de ida sem turno de volta, Taça Rio e Taça Guanabara num mesmo turno? Uma confusão sem fim.

Como reinventar os estaduais num mundo globalizado que parece querer convencer a gente de que só as grandes conquistas importam e, pior, enfiar goela abaixo o conceito do que são, afinal, as tais grandes conquistas?

Nossa imaginação parece ter sido bloqueada e já não conseguimos pensar em alternativas que não sejam tirar os Estaduais do calendário. Já não conseguimos imaginar uma coisa como foi o tradicional e divertido Torneio-Início, que era realizado em um único dia abrindo os calendários. Os jogos duravam apenas 20 minutos e número de escanteios podia decidir alguns empates em vez das cobranças de pênaltis.

Os Estaduais agora são vistos como aqueles torneios que atrapalham os times. Durante a pandemia a sensação piorou. Jogos em sequência, times preocupados com Libertadores, Copa do Brasil, Sul-Americana, Brasileirão. Os Estaduais passaram a ser um tormento.

Mas, quem sabe, se desbloquearmos nossa imaginação seremos capazes de imaginar estaduais divertidos e que nos levem de volta para casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL