PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A indecente e promíscua ligação entre o futebol e o aquecimento global

Ilustração - planeta terra aquecimento global mudança climática - Gerd Altmann/ Pixabay
Ilustração - planeta terra aquecimento global mudança climática Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

22/04/2021 13h41

Dia 22 de abril é o dia da Terra, esse planeta que tão gentilmente nos serve de casa. A Terra, mais do que um planeta vagando perdido pelo Cosmos, é um sistema composto pela geosfera, pela hidrosfera, pela atmosfera e pela biosfera. Um sistema que, para existir do jeito como conhecemos e gerar vida, precisa interagir de forma equilibrada. As chances desse equilíbrio gerar a abundância de vida que nos cerca são menores do que mínimas e por isso não considero exagero dizer que a vida - e falo de todas as formas de vida sobre a face da Terra - é um milagre.

Mas cá estamos, inventando nossas maneiras de existir, respirando o oxigênio que as florestas oferecem e, nos intervalos, fazendo arte. O futebol é uma dessas formas de expressão artística inventada pelo ser humano.

Há pelo menos 30 anos é sabido que o aquecimento global causado pelo homem (e uso aqui a palavra sem nenhum risco de cometer um tipo de sexismo) é uma realidade e uma ameaça à vida humana. Cientificamente, não há dúvidas sobre a questão e, se nada mudar na forma como produzimos, consumimos e distribuímos bens e serviços, estaremos acabando com a possibilidade de vida decente nesse planeta. Não é mais uma ameaça e talvez já nem seja mais um caminho com volta.

Mas, desde os anos 90, poderosos grupos foram mobilizados para jogar dúvidas sobre esses fatos científicos. Como conta o antropólogo e sociólogo francês Bruno Latour em uma de suas palestras, a estratégia de colocar dúvidas sobre os fatos científicos foi lançada originalmente por um político republicano chamado Frank Luntz ao propor que o termo "mudanças climáticas" substituísse "aquecimento global".

Nas palavras de Lutz, citadas por Latour: "O debate científico está se fechando contra nós. Se o público vier a acreditar que as questões científicas estão resolvidas suas visões sobre aquecimento global mudarão. Por isso precisamos continuar a tornar a falta de certeza científica uma questão primordial".

Que interesses Lutz representava quando propôs "implantar dúvidas para abalar certezas"? O interesse das exploradoras e distribuidoras de carvão e petróleo no mundo. Caso fosse aceito que a emissão de CO2 (o carvão e o petróleo, portanto) fosse a causa do aquecimento global, os fatos levariam a um consenso da opinião pública e, assim, a políticas que certamente prejudicariam o lucro e o acúmulo de riqueza desses empresários. Se esses fatos fossem tomados como verdade incontestável, o modo de vida americano (e o capitalismo) seria colocado em dúvida - e o modo de vida americano, como disse textualmente o ex-presidente George Bush em 1992, "não está em negociação".

A ciência explica que precisaríamos de cinco Terras caso todos os habitantes do planeta levassem a vida que os americanos levam. Então, é realmente preciso esconder da opinião pública que o modo de vida americano e o capitalismo vão nos levar à extinção.

Mas e o futebol? O que ele tem a ver com tudo isso?

Como conta Jamil Chade aqui, três dos quatro clubes que chegam à semi da Liga dos Campeões dessa temporada pertencem a oligarquias ligadas ao petróleo. A relação entre bilionários do petróleo e futebol europeu não é nova, mas reflete a realidade desse mundo distópico que, a despeito das evidências científicas, se recusa a buscar outras formas de gerar energia.

Concentração de riqueza gera concentração de poder. Vivemos em um mundo no qual oito homens acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população (3 bilhões e meio de pessoas). O futebol reflete a forma como vivemos e, por isso, poucos clubes considerados muito ricos (a despeito das dívidas colossais que tenham) dominam o esporte criando uma elite que existe separadamente dos demais.

Mas o que é, afinal, um time grande no futebol? Times como Chelsea, City e PSG, que tentam se impor grandes por causa do incrível volume de dinheiro jogado em seus cofres por mega-empresários internacionais? Basta isso para se tornar grande? Você torceria apaixonadamente por um time organizado como uma empresa? Será que é esse o futuro do jogo? - supondo, claro, que haja futuro para a vida humana nesse planeta tão cheio de belezas de de vidas.

Por tudo isso, nesse dia que criamos em homenagem ao planeta que chamamos de casa, é preciso chamar a atenção para a promíscua, imoral e indecente ligação entre o futebol atual e o aquecimento global.

Errata: o texto foi atualizado
A coluna informava anteriormente que o o Dia da Terra seria em 22 de março; na verdade é 22 de abril. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL