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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Superliga é uma manifestação dessa doença chamada capitalismo

Especial - Futebol Raiz (várzea) - Diego Padgurschi /Folhapress
Especial - Futebol Raiz (várzea) Imagem: Diego Padgurschi /Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/04/2021 15h57

Queria começar esse texto respondendo o que o dinheiro pode comprar. Atenção para a lista:

Um upgrade de cela em penitenciárias americanas, o direito de ser imigrante legal nos Estados Unidos, o direito de atirar e matar um rinoceronte preto no continente africano, o número de celular de seu médico, a entrada de seu filho numa universidade de prestígio.

E para todos os que andam um pouco sem grana existem as seguintes opções para fazer um caixa: alugar a testa para estampar uma campanha publicitária, servir de cobaia em testes para a indústria farmacêutica, lutar na Somália contratado por um exército privado, passar a madrugada guardando lugar na fila do Capitólio, em Washington, para o lobista que vai chegar pela manhã e, minha preferida, comprar uma apólice de seguro de vida de uma pessoa velha, pagar a anuidade enquanto a pessoa está viva, e ficar com o prêmio quando a pessoa morrer - uma forma de apostar em vidas que, em 2013, era um mercado de 30 bilhões de dólares nos Estados Unidos.

Assim começa o livro "O que o dinheiro não pode comprar - o limite moral dos mercados", de Michael Sandel, professor de filosofia política em Harvard. Se depender de alguns economistas liberais brasileiros, não vai demorar para que "órgãos não essenciais" engrossem esse inventário. O que seria um órgão não essencial e por que uma pessoa precisaria comprar um órgão não essencial fica para outro texto.

O fato é que não pode causar surpresa - ainda que possa causar revolta - essas notícias sobre a tal Superliga que times da elite do futebol mundial estão organizando para lançar e se tornar o super campeonato das galáxias. Foi-se o tempo em que bastava um caneco do Paulistão. O Brasileirão já nem muita coisa vale. A Libertadores ainda vá. Mas o que vale mesmo hoje é ser o supercampeão de um torneio de times que possuem dívidas bilionárias e pertencem a empresários trilionários.

Faz sentido? Não, não faz. Mas esse mundo do Capital e do lucro, onde 20 homens concentram a mesma riqueza que metade da população mundial, não faz mais nenhum sentido. O futebol apenas reflete essa imagem absurda, indecente e imoral.

O empreendedorismo é uma ideologia e ela prega que somos todos, antes de mais nada, empresários de nós mesmos. A partir dessa verdade, tudo deve ser organizado pela lógica empresarial. Nações, estados e cidades precisam ser administradas para dar lucro, clubes de futebol devem existir para enriquecer seus donos e nós devemos nos inserir no mundo respeitando essas regras "naturais".

Com a crise do capitalismo de 2008, que aumentou exorbitantemente a concentração de riqueza e, portanto, de poder, a saída para que sigamos sem questionar o sistema foi jogar a questão no campo moral: economia é austeridade e sentenças como "não se gasta mais do que se ganha" são repetidas a fartar para se referir a contas públicas, como se um Estado funcionasse da mesma forma que um lar, como se o Estado tivesse que dar lucro e jamais prejuízo, como se o Estado fosse uma empresa.

Não precisamos de uma reflexão muito ampla para entender que essa régua moral não vale para todos porque os muito ricos - assim como os clubes muito ricos - vivem da dívida. O lastro para emissão de dinheiro nesse mundo alucinado é, inclusive, a dívida.

Faz sentido? Não, não faz.

Como ensina o professor Vladimir Safatle, e como repetem filósofos como o sul-coreano Byung Chul-Han, a pessoa que fracassa nessa sociedade que diz que tudo é possível se você se esforçar e trabalhar para isso, fracassa sob a ideia de que ela não foi capaz e, pelo fracasso, a responsabilidade é apenas sua. Esse tipo de sofrimento impede reações sociais e causam depressões. Então, paralisados, assistimos poucos homens estabelecerem as leis, as normas e as regras desse mundo em que vivemos e, no máximo, esperneamos nas redes sociais.

Lideranças indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, têm nos alertado para a saída desse labirinto em que nos metemos: escutar a terra. O planeta está implorando para poder respirar, para que paremos de perfurar, de explorar, de derrubar, de queimar. Mas nós, que nos achamos os proprietários desse lugar, não estamos querendo escutar e seguimos com nossos planos megalomaníacos. A mesma lógica bilionária por trás da criação dessa Superliga está investindo em missões espaciais para colonizarmos Marte.

Faz sentido? Não, não faz.

O que faria sentido? Desacelerar. Decrescer. Diminuir. Desconstruir. Voltar para casa.

E no futebol? Talvez pensar pequeno. Valorizar as bases, a várzea, os estaduais. Investir em um novo pensamento para o jogo, novas formas de estar em campo, estádios para todos, sem divisão de classes.

Mas a gente está indo pela contramão do sentido. Vimos o abismo e em vez de fazer meia-volta estamos correndo em sua direção. A Superliga não é um novo campeonato; é apenas uma nova manifestação de um mesmo sintoma dessa doença chamada capitalismo.

O dinheiro pode comprar uma nova liga de futebol? Certamente. Pode comprar um parlamento? Com certeza. Pode comprar o direito de um presidente romper a constituição e se reeleger? Ô se pode (alô, FHC). Pode comprar um novo pulmão, furar a fila da vacina, vaga na UTI? Temos visto que sim.

Essa Superliga deve, por motivos outros, fracassar ao que tudo indica. Mas a força vital que fez com que ela parecesse uma boa ideia não vai morrer e, em pouco tempo, uma nova proposta de Superliga vem aí.

Para fechar e dar a volta completa: Numa sociedade de mercado regulada pelo poder do Capital privado o que, então, o dinheiro não pode comprar? Assusta pensar que a resposta seja "nada", não é mesmo?

Mas talvez possamos terminar com uma nota menos baixa. O dinheiro não compra nossa paz de espírito, nem nossa dignidade, nem nossa decência, nem nossa coerência. E, a despeito do que digam, também não compra nossa felicidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL